Almodóvar encerra a filmagem de "Volver"

Pedro Almodóvar finalizou na última segunda-feira, dia 17, as filmagens de Volver, filme protagonizado por Carmen Maura e Penélope Cruz, que "é contado através dos olhos das atrizes", informou o cineasta em seu diário virtual. Quando já haviam sido transcorridas onze semanas de filmagem, que teve início no dia 18 de julho, nas províncias de La Mancha e Madri, Almodóvar escreveu em seu diário: "Espero, sonolento, que o cameraman tenha ensaiado os movimentos com a câmara e que o diretor de fotografia tenha criado a atmosfera. Então entro eu, indicando aos atores como devem atuar. Normalmente, gosto de me "grudar" e de me movimentar junto com eles". "Depois lemos o texto, lhes transmito as minhas intenções, que muitas vezes estão nas entrelinhas, lhes sugiro o tom, e eles seguem aplicando minhas indicações. Volto a indicar-lhes a musicalidade de cada palavra, o tempo de cada pausa, e o tom de cada frase. Dirijo-os como se fossem cantores sonâmbulos de uma ópera cuja única música são as palavras", diz Almodóvar. Já na última fase das filmagens, o cineasta, já esgotado, comenta: "Só meu trabalho com os atores, único e intransferível em todos os sentidos, consegue me despertar". Em relação ao filme, diz que "é uma história que é contada através dos olhos das atrizes. Desde o início me senti obrigado a vê-los, e este impulso me obrigou a ter um planejamento no qual quase não se notam os lugares nem os movimentos da câmara". Um planejamento que Almodóvar chama de "clássico" ou "o oposto do estilo Dogma" - do dinamarquês Lars von Trier -, e que foi implementado após ver o material montado junto ao músico Alberto Iglesias, habitual autor das trilhas sonoras de seus filmes. Em seu diário, o cineasta detalha a filmagem de uma longa seqüência, quase um monólogo, interpretado por Carmen Maura -a mãe fictícia de Penélope Cruz-, no qual a atriz explica a sua filha as razões de sua morte e as de sua ressurreição. A seqüência é, segundo Almodóvar, "uma das razões" pelas quais queria filmar Volver. "Chorei todas as vezes que corrigi o texto. Eu me sinto como Kathleen Turner em Tudo Por Uma Esmeralda, uma ridícula escritora de novelas kitsch, que chorava enquanto as escrevia", conta o diretor, que levou uma noite inteira filmando a sequência. "Uma noite - explicou - em que todos estávamos extremamente concentrados nas cenas difíceis, que justamente por isso se transformam nas mais fáceis; porque damos o máximo de nós mesmos". A satisfação pelo resultado obtido é perceptível na leitura do diário, onde Almodóvar escreve: "De novo, volto a sentir essa cumplicidade sagrada com Carmen, essa maravilhosa sensação de estar diante de um instrumento perfeitamente afinado para mim. Todas as tomadas são boas, e muitas delas, extraordinárias. Penélope a escuta. Em Volver se fala muito, se oculta muito, se escuta muito e, para ser uma comédia, - isso diz a equipe - se chora muito". O cineasta afirma que, nos dezessete anos que passaram sem trabalhar juntos, Maura, como atriz, "não mudou". "Não aprendeu nada - explica - porque já sabia tudo, mas manter esse fogo intacto ao longo de duas décadas é uma tarefa admirável e difícil. Não poderia dizer o mesmo de todos os atores com os quais trabalhei". Ainda nesta mesma noite, Almodóvar recebeu no set de filmagem a visita de Cecilia Roth. A atriz argentina, protagonista de seu filme vencedor do Oscar, Tudo sobre Minha Mãe, representava na época a peça La Voz Humana de Cocteau, o que traz à memória do diretor a cena de La Ley del Deseo, onde Carmen Maura interpretava alguns parágrafos dessa obra. E lhe faz pensar em como mudaram, ele e Maura, nos vinte anos transcorridos entre os dois filmes. "No aspecto pessoal, Carmen não mudou quase, escreve. Continua sendo a doce brincalhona, que tenta não complicar a vida, e que a vive com um humor relaxado. Em comparação a ela, sinto que sou mais pesado, não apenas fisicamente".

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