Sony Picture
Sony Picture

Almodóvar abre Festival de Veneza com 'Mães Paralelas'

Uma dupla emblemática do cinema espanhol, Pedro Almodóvar e Penélope Cruz, marcará a abertura do Festival de Cinema de Veneza nesta quarta-feira (1º), que este ano garante a presença de várias estrelas no tapete vermelho, apesar da pandemia

Kelly Velasquez, AFP

01 de setembro de 2021 | 15h00

Almodóvar, que concorre ao Leão de Ouro junto com outros 20 filmes, abre a competição com Mães Paralelas, no qual aborda alguns de seus assuntos favoritos, como a maternidade e a família, mas também um argumento muito político: o da guerra civil espanhola e a ditadura franquista. O cineasta espanhol, de 71 anos, que alcançou a fama mundial com a ousadia colorida de seus filmes e iniciou sua carreira internacional justamente no Festival de Veneza - no qual recebeu em 2019 o Leão de Ouro honorário - chegou ao Lido acompanhado por todo o elenco de seu filme, entre eles a atriz Penélope Cruz.

Com Milena Smit, Aitana Sánchez Gijón e Israel Elejalde, o filme narra a história de duas mulheres de gerações diferentes que vão ao mesmo hospital para dar à luz, uma experiência que acaba as unindo profundamente. Os relatos dessas mães solo, que buscam formar suas próprias famílias, são também um pretexto para falar de um passado incômodo, devido ao peso dos espanhóis desaparecidos.

O filme aborda uma verdade pessoal e uma histórica e é protagonizado por "mães imperfeitas", segundo explicou o próprio Almodóvar. "Agora me interessam mais as mães imperfeitas, questionáveis, ou que enfrentam momentos muito difíceis", confessou o cineasta. "As mães (dos filmes anteriores) eram o exato oposto, eram inspiradas em minha própria mãe, figuras femininas de quando eu era jovem, quando era cercado de mulheres, minha mãe, as vizinhas, todas as mães onipotentes", contou. 

Com seu novo filme, o cineasta espanhol, famoso por Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988) e Tudo Sobre Minha Mãe (1997), aborda um assunto ainda quente e que divide a Espanha: o dos "desaparecidos". "A memória histórica é uma questão pendente na sociedade espanhola. Tem uma dívida moral enorme com a família dos desaparecidos", afirmou o cineasta em coletiva de imprensa. Uma dívida "com essas pessoas que estão enterradas de forma indigna", destacou.

Mais de 100.000 vítimas do conflito (1936-1939) e da ditadura (1939-1975) ainda estão desaparecidas, algumas enterradas em fossas comuns, segundo estimam historiadores e associações de vítimas do franquismo, que pedem ajuda pública há décadas para encontrá-los. Almodóvar, que desenvolveu o projeto do filme durante o confinamento pelo coronavírus em 2020 na Espanha, usa uma série de fotos em preto e branco e conclui com uma emocionante homenagem aos desaparecidos, com uma frase do escritor uruguaio Eduardo Galeano. "Até que essa dívida com os desaparecidos seja paga, não podemos encerrar definitivamente tudo o que aconteceu na Guerra Civil", insistiu.

O elenco do filme comparecerá à noite na cerimônia de inauguração na lendária Sala Grande do Palácio do Cinema, com a presença do presidente da República italiano, Sergio Mattarella.

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.