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Alma de carpinteiro

Harrison Ford avalia sua carreira e diz que atuar é como trabalhar com madeira

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2013 | 02h18

Aos 71 anos - nasceu em Chicago, Illinois, em 13 de julho de 1942 -, Harrison Ford continua achando que, apesar dos numerosos prêmios de carreira que já recebeu -, sua vida e obra são ainda um 'work in progress'. "Não penso em aposentadoria", ele diz. "Ainda há muita coisa que quero fazer, mas, é claro, depois de um certo tempo, a gente começa a diminuir o ritmo." O novo longa, Ender's Game, baseia-se na série de livros de Orson Scott Card, publicada no Brasil pela Editora Devir. É assinado por Gavin Hood, o diretor sul-africano que venceu o Oscar de filme estrangeiro com Tsotsi, em 2005. No Brasil, será distribuído pela Paris, em dezembro, após Jogos Vorazes - Em Chamas, que vai tomar de assalto as salas no mês que vem.

Harrison interpreta um personagem antipático. É o instrutor que escolhe jovem para liderar as forças da Terra na batalha decisiva contra os extraterrestres. Ele manipula o garoto, mas quanto e como isso ocorre você vai ter de esperar para ver em O Jogo do Exterminador, que foi o subtítulo que o filme ganhou no Brasil. "Quando interpretei um vilão em Revelação (de Robert Zemeckis, 2000), a imprensa se preocupou mais com isso do que eu. Entendo, porque sou aquilo que se chama um astro, tenho uma imagem. Mas seria muito chato ficar preso a essa imagem. Cada vez me interesso menos pelo personagem. Não me leve a mal. Quero dizer que o que me interessa é a história. Se a história é boa, quero fazer parte do projeto. E não faz mal se o personagem é vilão ou herói, simpático ou antipático. Não julgo, nunca julguei moralmente meus personagens. Interpretei alguns muito éticos, outros nem tanto. Mas espero que ninguém me acuse de ter ajudado a contar histórias desinteressantes, ou que promovam a discriminação e o ódio."

Ele se lembra quando chegou em Los Angeles, em 1964. Naquela época, queria ser radioator. Achava que sua estampa era comum, mas tinha boa voz. Em 1966, fez umas ponta em O Ladrão Conquistador e foi contratado pela Columbia - um contrato de cinco anos, que começou com o salário semanal de US$ 160. "Ninguém respeita alguém que ganhe tão pouco. Tive uma participação em Zabriskie Point(de Michelangelo Antonioni), ia fazer o Model Shop(O Segredo Íntimo de Lola, de Jacques Demy), mas outro ator pegou o papel. Em 1970, estava tão desiludido, e ainda com mulher e filho para sustentar. Fui ser carpinteiro, porque ganhava mais - até US$ 600, numa semana boa", ele lembra.

E aí a maré começou a mudar. Ganhou papéis em Loucuras de Verão, de George Lucas, e A Conversação, de Francis Ford Coppola. O próprio Lucas o chamou para o papel de Han Solo em Star Wars, o primeiro a ser feito - Guerra nas Estrelas, em 1977. Logo veio Blade Runner - O Caçador de Androides, de Ridley Scott. E quando Lucas e o diretor Steven Spielberg resolveram resgatar o espírito das matinês de antigamente, criando um personagem emblemático - um tal de Indiana Jones -, foi Harrison Ford, ao cabo de algumas indecisões da dupla, quem vestiu o chapéu e empalmou o chicote do herói. O resto é história e, por mais de 30 anos, Harrison Ford tem sido um preferido do público.

Honestidade. É prático. "Trabalho num negócio, tenho uma visão de empresário. Mas existem momentos em que aquilo que a gente faz nos surpreende e surpreende os outros. Vira arte. Tenho imenso orgulho de quase tudo que fiz. Algumas escolhas não foram acertadas, ou os filmes não deram certo. Acontece, de vez em quando. Não se pode acertar sempre. Mas não creio que possam me acusar de desonestidade intelectual ou de ter tentado prejudicar quem quer que seja. Tive bons pais, um irlandês e uma judia russa, que me ensinaram a ser ético. E eu prefiro ser pai, marido e amigo a ser um astro."

O repórter enumera seus grandes papéis - Indiana Jones, Blade Runner, A Testemunha. O longa de Peter Weir é um de seus preferidos. "Tínhamos uma bela história e o personagem era muito sóbrio", lembra. Essa sobriedade é justamente sua marca. Ao longo de sua carreira, Harrison Ford tem ombreado com os astros míticos do passado por seu minimalismo na arte de interpretar. Com ele, menos é sempre mais. "É uma boa definição. Não creio que alguém se lembre de me chamar para um papel característico, que até gostaria de fazer", admite.

Seu método é básico - consiste em não interferir no jogo dos outros atores. Ben Kingsley, com quem divide algumas cenas em Ender's Game, cria um personagem mais flamboyant, com direito a tatuagens maoris estampadas na cara. Ele prescinde da maquiagem, mas usa (na vida) um brinco - bem despojado, por sinal. "É o máximo que me permito", ri. Nos quase 50 anos decorridos desde que pisou em Hollywood, ele diz que viu muita coisa mudar no cinema como na sociedade norte-americana. Interpretou personagens do futuro, agentes secretos, até o presidente dos EUA (em Força Aérea Um). Em 1997, numa das tantas vezes em que contabiliza ter estado no Brasil, participou de uma convenção ambientalista na Bahia. Não renega nada do que diz ou faz, mas não tem o menor interesse em misturar cinema com ecologia ou política.

"Não estou criticando ninguém, mas o que trato de fazer é trabalhar com honestidade. Atuar para mim não é muito diferente de trabalhar com a madeira, quando era carpinteiro. Não considero meu métier muito diferente do de um garçom ou um administrador de empresa. Sério. Sou apenas um funcionário do departamento de ficção de um conglomerado. Não tenho ilusões nem vontade de transformar minhas atuações em marcos da paisagem cultural. Vivo muito melhor assim, com minha consciência."

Fala do Brasil como algo distante, mas próximo. "Quando era carpinteiro construí o estúdio musical de Sérgio Mendes. Ele ficava por ali e me falava do Brasil como algo mítico. Quando conheci seu país, não creio que tenha experimentado algum desapontamento. Como a América, o Brasil possui uma diversidade muito grande - humana e de paisagem."

Como foi voltar à ficção científica em Ender's Game? "Gavin (Hood) é muito competente, mas meu personagem me poupou do maior desafio nesse tipo de filme. Ben (Kingsley) e Asa Butterfield (o garoto) trabalham mais na parte futurista e nos efeitos, e tiveram de fazer as cenas com fundo azul e verde. É sempre melhor contracenar com gente de verdade."

Algum desafio particular ao longo destes 36 anos (desde Guerra nas Estrelas)? Quem sabe o presidente dos EUA? "Clinton era o presidente na época de Força Aérea Um, mas o filme não era sobre ele. O máximo em que talvez tenha me inspirado foi na questão da voz. Os presidentes discursam e adotam um timbre, um tipo de empostação para se dirigir ao público. Não se esqueça de que queria trabalhar com a voz no começo de minha carreira."

Han Solo? "Não gosto de me ver nos filmes antigos. Não preciso que eles me lembrem como eu era. Solo é um personagem distante, com o qual não tenho mais nada a ver. Mas me surpreende como esses filmes fazem parte do imaginário das pessoas. Em todo o mundo encontro fãs da série (Star Wars). É o que faz desse negócio (o cinema) uma coisa tão maravilhosa."

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