Allen leva de volta às telas o mundo do jazz

Poucas e Boas tem sido indevidamente vendido como um falso documentário sobre o músico cigano Django Reinhardt. Não se trata bem disso. Com este filme, Woody Allen coloca Reinhardt, um personagem real, guitarrista diabólico, como sombra de seu personagem fictício, o músico Emmet Ray, vivido por Sean Penn. Ray é um maluquete de gênio, e repete a todo momento e a qualquer pretexto que é "o maior violonista do mundo, com exceção de um cigano francês". Django, claro.O filme é a história dessa sombra, desse fascínio à distância vivido por Ray. Diz ele que encontrou Django em uma ou outra ocasião - e que a emoção foi tão grande que chegou a desmaiar. Fascínio misturado com temor. Em uma das seqüências mais hilárias de Poucas e Boas, antes de entrar em cena, os músicos de Ray brincam com ele, dizendo que Django Reinhardt fora visto em uma das mesas. Apavorado, Ray tenta escapar pelo telhado, com conseqüências inesperadas.Claro, a história imaginada por Woody Allen, é pretexto para, mais uma vez, homenagear a música norte-americana, no caso aquela praticada nos anos 20 e 30. Por outro lado, essa homenagem abraça o outro lado do Atlântico, na figura de Reinhardt, um europeu, o que é uma prova maior da força do jazz e de sua incrível capacidade de se internacionalizar. Antes de ser destronado pelo rock (Hobsbawm tem algumas coisinhas a dizer a respeito), o jazz aparecia como a verdadeira música global da nossa era. A sua substituição pelo rock parece uma das perdas inestimáveis da época atual.A história, inventada, de Emmet Ray, é aquela que poderia ser a de qualquer músico de jazz real dos primeiros anos do século passado. Um caos. Um caos movido a mulheres, álcool e outros aditivos. Instrumentistas como Ray tocavam em qualquer ponto dos Estados Unidos. Levavam uma vida itinerante, em caravana constante, deslocando-se de cidade em cidade, onde se apresentavam, dormindo nas espeluncas disponíveis, bebendo, fazendo amizades, trocando de companhia. A certa altura da trama a trajetória de Emmet começa a se parecer muito com a de Charlie Parker - tocando, drogando-se, indo a caminho da destruição.Mas o Emmet criado por Allen não é exatamente um suicida potencial, como foi Parker. Emmet é um tipo hilário, trapalhão, esquivo, ardiloso como um camelô, quando se trata de enrolar alguma mulher incauta. Em determinado momento, ele decide que tem de economizar. Sugere então à esposa que ela se consulte com o veterinário e não com o médico. Fica mais em conta.Aliás, as mulheres de Emmet Ray são atração à parte. A primeira é um verdadeiro achado: Samantha Morton, que faz uma garota muda. E tão expressiva que sem uma palavra diz tudo o que é preciso sobre a situação de uma mulher frágil dedicada a um tipo mais egocêntrico e infantil que uma top model. A outra é Blanche (Uma Thurman), que, ao contrário da primeira, fala compulsivamente e interroga o marido a todo instante. Colhe material para um livro que projeta escrever, e, no intervalo, passa o músico para trás com o guarda-costas de um gângster.Sean Penn encarna à perfeição um papel difícil. Mostra talento de ator ao interpretar um tipo que é um provável gênio para a música e um idiota para todo o resto. Emmet não chega a ser uma figura trágica. É apenas patética. E assim é retratado por um Woody Allen que, como qualquer criador que se preza, demonstra compaixão por seus personagens, sobretudo por aqueles mais frágeis.Como todo mundo sabe, Allen é músico, ele próprio. Toca clarineta, parece que bem, mas não chega, claro, a ser verbete de enciclopédia de jazz, como é nas de cinema. Mas enfim, é simpático ao universo da música, que conhece por dentro, e acha, com razão, que ela é um dos (poucos) prazeres reais da vida. O filme todo respira essa simpatia, mesmo que seja uma simpatia exasperada, porque, apesar da graça e do riso, estamos sempre conscientes de seguir um personagem sem vocação real para a felicidade.Poucas e Boas (Sweet and Lowndown). Comédia. Direção de Woody Allen. EUA/99. Duração: 95 minutos. 12 anos

Agencia Estado,

01 de fevereiro de 2001 | 20h51

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