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Alice Rohrwacher e a irmã Alba revisitam o mundo das ‘maravilhas’

Filme ganhou o prêmio especial do júri em Cannes e tem participação da ‘deusa’ Monica Bellucci

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

22 de abril de 2015 | 03h00

Havia a expectativa de que, em Cannes, no ano passado, a japonesa Naomi Kawase ganhasse a Palma de Ouro com o belo O Segredo das Águas. Apesar do empenho de jurados como o autor chinês Jia Zhang-ke, a presidente do júri, a neozelandesa Jane Campion, ficou contra Naomi e usou sua influência para premiar a italiana Alice Rohrwacher. Ela recebeu o prêmio especial por As Maravilhas. O filme está em cartaz na cidade. É ótimo – e estranho.

Alice conta a história de uma família de apicultores. Foi filmado na região etrusca, berço de uma civilização desaparecida. É sobre isso que fala seu filme – valores e culturas que desaparecem, e o que resta.


Alice dirige a irmã, Alba. Filma a região em que ambas nasceram. O pai, no filme, é alemão, como o pai delas. Comunica-se mal em italiano. Exaspera-se. As abelhas fazem parte da ficção como fizeram parte de sua vida. É um filme autobiográfico? “Não”, ela respondeu para o repórter. “Mas é pessoal, no sentido de que coloquei muita coisa minha e de minha irmã na história. Seria pessoal, de qualquer maneira. É o meu olhar sobre as coisas e as pessoas.”

Como se faz um filme com abelhas, sobre abelhas? “No passado, (Theo) Angelopoulos fez O Apicultor, com Marcello Mastroianni. Era um filme sobre o tempo, como todos os filmes dele. E tenho certeza que ele diria a mesma coisa – filmar com abelhas é difícil porque as pessoas têm medo delas. No ‘paese’, lá onde nasci, dizia-se que uma picada de abelha é coisa boa, que prolonga a vida. O veneno age no organismo e fortalece. No set, todo mundo morria de medo das abelhas. Fomos todos picados, e mais de uma vez. Ninguém morreu.”

Por que a história da família que está ameaçada de perder seu negócio artesanal? Por que essa irmã mais velha, que cuida de todo o mundo? “Ela se chama Gelsomina, como Giulietta Masina em A Estrada da Vida/La Strada, que é o meu (Federico) Fellini do coração. Mas não é um filme felliniano, mesmo que a televisão entre lá pelas tantas como uma fantasia. A família está falindo, Gelsomina arrisca tudo e, contra a vontade do pai, inscreve a família num programa de TV que pode ajudar a resolver os problemas. A TV em meu País é muito discutida, por causa da influência de (Silvio) Berlusconi. Mas ela não é necessariamente ruim. Queria que a TV fosse boa no filme.”

Filmar com a irmã foi um sonho. “Alba é uma atriz extraordinária. Filmamos perto de onde nascemos. A equipe mesclava profissionais e locais. Escrevi o roteiro criando uma curva para cada personagem e depois ia cruzando as histórias individuais até obter muitas curvas. Nunca foi minha preocupação ‘fechar’ essa história. Para mim, o processo é mais importante que o resultado. A própria ideia do programa de TV funcionou assim. Nunca me preocupei se ia ajudar ou não na solução do drama. Participar do programa muda a vida das pessoas. Muda como, ou para o quê, já é outra história?”

Misturando o nome da diretora com o do filme, muita gente, em Cannes, disse que era Alice no País das Maravilhas. “São vocês (jornalistas) que dizem, não eu”, observou a diretora. “Mas gosto desse elemento fantástico que entra para subverter o realismo do cotidiano.” Sobre a participação de Monica Bellucci, ela diz: “Queria alguém icônico. Uma amiga conhecia Monica, enviei-lhe o roteiro. Ela disse sim quase imediatamente. É ou não é uma maravilha?” 

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