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Alfred Hitchcock, o mestre do suspense

Há 35 anos morria o cineasta que marcou a história cinematográfica mundial e até hoje é reverenciado; veja galeria de imagens

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

29 de abril de 2015 | 10h47

Completam-se nesta quarta-feira, 29 de abril, 35 anos da morte de Alfred Hitchcock. Ele morreu aos 80 anos em sua casa em Bal Air, Los Angeles. Pregou uma última peça aos amigos e admiradores. Quando compareceram para o enterro, o corpo havia sumido! Alfred Hitchcock criou fama como mestre do suspense, se há uma coisa que sabia ser era humorado. Não exatamente por isso, tornou-se o cineasta preferido pelos próprios diretores de cinema, numa pesquisa realizada anos atrás. E, depois de décadas em que dois filmes se alternaram no primeiro lugar da lista dos melhores de todos os tempos - O Encouraçado Potemkin, de Sergei M. Eisenstein, e Cidadão Kane, de Orson Welles –, a mais recente pesquisa com críticos, historiadores e artistas desbancou os dois e colocou no topo um Hitchcock. O escolhido foi Vertigo/Um Corpo Que Cai, de 1958.

São muitas as histórias sobre como Hitchcock teve uma educação familiar rígida. O pai, certa vez, enviou-o à delegacia com um bilhete, pedindo ao delegado que encarcerasse o menino. Hitchcock ficou velho sem saber do que o pai o acusava, ou por que quis lhe aplicar o corretivo, mas o trauma ficou. A educação religiosa com os jesuítas somente agravou os sentimentos difusos - a culpa é um tema recorrente da obra de Hitchcock, com o homem errado e o falso culpado. Mas, também por força da repressão e da consciência de que, desde menino, não tinha atrativos físicos, o desejo reprimido também irrompeu nos filmes – e o erotismo das chamadas loiras frias hitchcockianas entrou para a história.

Ele começou a filmar na Inglaterra, onde nasceu. Os primeiros filmes foram mudos e não anunciavam o futuro diretor em que se transformou. Foi preciso esperar por The Lodger, com seu retrato do estripador, para que o estilo se afirmasse. Nos anos 1930, ainda na Inglaterra, assinou seus primeiros sucessos - Os 39 Degraus, A Dama Oculta e O Homem Que Sabia Demais (a primeira versão). No fim da década, já estava em Hollywood, e aí iniciou nova etapa. De cara ganhou o Oscar de melhor filme de 1940 por Rebecca, a Mulher Inesquecível, mas não o de melhor diretor, que naquele ano foi para o John Ford de Vinhas da Ira.

Aquela seria uma década prodigiosa para Hitchcock, que amadureceu como autor, e refinou seu estilo. Ele também descobriu a psicanálise e, desde então, ela sempre irrompeu em seu cinema. Nasceram um para o outro, Freud e ele, diziam os críticos. Os anos 1940 foram marcados por Suspeita, A Sombra de uma Dúvida, Interlúdio. Em 1948, fez uma curiosa experiência de tomada única, rodando um filme num único take. Como os chassis de filmes da época não cobriam a duração inteira, Hitchcock teve de disfarçar os únicos cortes que foi obrigado a fazer. Ele não gostava muito de Festim Diabólico, e até achava a experiência ridícula, porque a montagem foi sempre importante em seus filmes, mas o filme não é só intrigante do ponto de vista técnico. O discurso de James Stewart sobre a compulsão de matar, no fim, chega a ser filosófico sobre a ‘maldade’ humana.

Em 1951, Pacto Sinistro/Strangers in a Train inicia nova fase. E vem a era das obras-primas - Janela Indiscreta, Ladrão de Casaca, Um Corpo Que Cai, Intriga Internacional. Por volta de 1960, Hitchcock está no auge. Um Corpo Que Cai, apesar do prestígio que tem hoje, não fora muito bem de público, mas Intriga Internacional arrebentou na bilheteria. O estúdio queria que ele fizesse mais do gênero. Ele não queria se repetir. Na França, surgira um movimento de jovens, a nouvelle vague. A crítica dos EUA começou a chamar Hitchcock de velho. Ele resolveu fazer um filme inovador, incorporando técnicas de TV.

Psicose não revolucionou só o estilo de Hitchcock, mas o próprio cinema. As 70 posições de câmera para 44 segundos de filme no assassinato de Marion Crane na ducha passaram a rivalizar com a cena da escadaria de Odessa, em Potemkin, como a cena, ou cenas mais influentes de todos os tempos. Psicose conta a história de um edipiano. Os Pássaros conta a história de outro. E Marnie, as Confissões de Uma Ladra, fechando o ciclo, não deixa de contar, agora com uma mulher, a história de um Norman Bates (o assassino de Psicose) curável.

Marnie, que um tiete de Hitchcock - François Truffaut -, chamava de obra-prima doente não fez o sucesso que o mestre esperava. Hitchcock entrou em crise, agravada pelo fato de ter sido rejeitado por Tippi Hedren, a estrela por quem teria se apaixonado (e ardia de desejo não correspondido). Cortina Rasgada e Topázio, apesar de suas qualidades, acentuaram o sentimento de que ele, talvez, estivesse acabado. Mas Hitchcock ainda se reinventou com Frenesi, no começo dos anos 1970. Foi um grande diretor. Filmava as cenas de crime como de amor, e as de amor como de crime. Não subordinava a técnica ao enredo, mas adaptava a técnica ao enredo. Foi além do suspense, do romance, do humor. Quando James Stewart encara o abismo em Um Corpo Que Cai, a angústia humana ganha uma dimensão metafísica.

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