Biblioteca Margaret Herrick, A.M.P.A.S.
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Alfred Hitchcock explorou como ninguém o próprio medo e o alheio

Mestre do suspense, o cineasta é lembrado nesta quarta, 29, nos 40 anos de sua morte

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2020 | 14h00

Alfred Hitchcock morreu em 29 de abril de 1980, há 40 anos. E, embora sua fase final não tenha sido das melhores, ele foi sempre objeto de um culto. Na França, o oficiante foi François Truffaut, que escreveu um famoso livro de entrevistas - Le Cinéma Selon Alfred Hitchcock, lançado no Brasil como Hitchcock-Truffaut (Claude Chabrol e Eric Rohmer também escreveram um livro sobre ele). Em língua inglesa, foram incontáveis livros, mas o definitivo, em termos de abordagem crítica, é o de Robin Wood, Hitchcock's Films, que se concentra na análise de um reduzido número de filmes.

Em 1995, uma enquete com diretores, para comemorar o centenário do cinema, apontou-o como o maior e o mais influente dos cineastas. Chamado de mestre do suspense, Hitchcock fazia um cinema comercial, como opção estética. Buscava o público e chegou a dar a Truffaut um conselho:  “Ao fazer seus filmes, pense nos japoneses”. Ou seja, um público bem diferente do francês, formado por seus compatriotas. O fato de pensar assim não impediu Hitchcock de ser autoral e experimental. Foi um precursor do cinema global.

Nascido em Londres, em 13 de agosto de 1899, é conhecida a história de que era menino quando seu pai o enviou à delegacia próxima, com um bilhete. Pediu ao delegado que o prendesse. O menino Hitch levou pela vida a experiência traumática. O fato de haver recebido uma rígida educação religiosa também ajudou a moldar seu caráter e tecer fantasias sobre culpa em seu imaginário. Como diretor, explorou como ninguém os medos próprios e os alheios. Teve uma primeira fase inglesa, outra mais longa e importante nos EUA e a terceira, final, de volta ao cinema inglês. Tornou-se o mais popular dos diretores de seu tempo porque, com grande sentido de marketing pessoal, começou a fazer pontas, aparecendo nos próprios filmes. O público esperava para vê-lo e, lá pelas tantas, sentindo que os espectadores estavam se desviando da história para procurá-lo nas cenas, Hitchcock tratou de aparecer logo no início.

Aparece passando de chapéu pela janela do escritório de Marion Crane, isto é, Janet Leigh, em Psicose. Carrega os cachorros - e eram os seus cachorros, Geoffrey e Stanley - na saída da loja em que Melanie/Tippi Hedren compra os pássaros. Justamente esse dois filmes formam com Marnie, as Confissões de Uma Ladra - que Truffaut definia como obra-prima doente por seus, digamos, defeitos - uma trilogia de personagens edipianos. Édipo remete à tragédia grega e também ao complexo formulado pelo pai da psicanálise. Freud e Hitchcock nasceram um para o outro. Em Hollywood, nos anos 1940, Hitchcock foi pioneiro na incorporação de conceitos psicanalíticos à ficção, e as cenas de sonho de Quando Fala o Coração foram criadas por Salvador Dalí. Nos anos 1950, realizou suas maiores obras-primas - Janela Indiscreta, Vertigo/Um Corpo Que Cai, Intriga Internacional. As maiores? Há controvérsia. Para muita gente, incluindo o autor do texto, nada supera o bloco formado por Psicose, Os Pássaros e Marnie, em termos de estilo e densidade de temas. Como a escadaria de Odessa, no clássico O Encouraçado Potemkin, de Sergei M. Eisenstein, de 1925, o assassinato na ducha de Psicose é outra das cenas mais imitadas da história do cinema.

Nos filmes, Hitchcock desenvolveu a ideia das loiras frias, que se revelavam vulcões na intimidade. Ofereceu grandes papeis a Ingrid Bergman, Grace Kelly, Kim Novak, Eva-Marie Saint. Com Tippi Hedren, a estrela de Os Pássaros e Marnie, ocorreu o improvável. Hitchcock apaixonou-se por ela, tentou assediá-la. Ela reagiu e, segundo a lenda, chamou-o de gordo e ridículo, o que teve um efeito devastador sobre o já velho cineasta, com 60 e tantos anos. Tippi tocou num ponto vulnerável - o corpo do próprio Hitchcock. O que leva a um tópico visceral - o corpo em Hitchcock. Num livro pequeno, de poucas páginas, na antiga Coleção Encanto Radical, da Editora Brasiliense, Inácio Araújo fez uma das abordagens mais inteligentes do cinema segundo Hitchcock. Num mundo onde tudo é signo e onde o mais aparente e o mais secreto caminham lado a lado, trazer à tona o secreto é a operação hitchcockiana por excelência.

O suspense difere do mistério. No segundo, o importante é descobrir quem matou? Em Hitchcock, o primeiro busca outra dimensão. Muitas vezes sabemos quem matou, e até por quê. O Terceiro Tiro, de 1956, desenvolve-se todo em torno ao ocultamento de um cadáver que está sempre reaparecendo. Mesmo com todas as informações que fornecia ao público - menos em Psicose -, Hitchcock tornou-se mestre em fazer do suspense uma fonte permanente de angústia, e medo. Cineasta do olho e da dúvida, da ambiguidade dos sinais, do espectador e do voyeurismo,  Hitchcock é - Araújo matou a charada - aquele que sempre se empenhou em mostrar do mundo o verso e o reverso.

Para assinalar a data - 40 anos sem Hitchcock -, o Telecine Cult inicia às 20h30 de terça, 28, uma programação de mais de 40 horas que vai prosseguir pela madrugada e durante toda a quarta, 29. exibindo 14 filmes, entre muitos dos melhores que rele fez.

 

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