TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
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Alexandre Rodrigues, o Buscapé de ‘Cidade de Deus’, muda para SP em busca de oportunidades

Artista em constante luta para sobreviver do seu suor e talento, ator chegou a considerar uma vaga de motoboy antes de se mudar para São Paulo

Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

23 de julho de 2017 | 08h00

Foi a namorada quem impediu o ator Alexandre Rodrigues de enviar o currículo para uma vaga de motoboy. Também foi ela quem impediu que Rodrigues interrompesse a carreira para “pagar as contas”. “Todo trabalho é digno, mas achei injusto que alguém com o talento dele não conseguisse espaço para viver daquilo que ele ama fazer. A partir daí, nos unimos e começamos a correr atrás”, disse a atriz e produtora Cacá Santini, 33 anos.

Hoje, aos 34 anos, Rodrigues está correndo atrás. O ator que apareceu para o mundo em Cidade de Deus, que vai completar 15 anos, ainda luta para se firmar e sobreviver como artista. “Claro que eu pensei em fazer outras coisas. As contas vão chegando e se acumulando. Mas continuo acreditando...”, diz. 

Rodrigues foi o intérprete do menino Buscapé no premiado longa de Fernando Meirelles. O sonho de se tornar fotógrafo profissional e a habilidade (e resiliência) em resistir à violência ao seu redor compunham o cerne do seu personagem. “O filme foi uma bênção. Até hoje me abre portas. Nas ruas, as pessoas ainda me chamam de Buscapé. Bom, às vezes de Acerola, de Zé Pequeno... Tem quem me aborde na rua achando que eu desisti da carreira. Tudo porque não estou muito na TV.” 

O ator conta que o cachê pelo Cidade de Deus foi de R$ 10 mil, “um dinheirão para a época”. Com a grana, Rodrigues realizou seus sonhos de infância: dar uma casa com “cômodos de verdade” para a mãe (antes, sala, quarto e cozinha ocupavam o mesmo espaço) e comprar motos. “Tive cinco motos. Não sobrou nenhuma. Vendi a última faz pouco tempo.”

Há um ano em São Paulo, Rodrigues diz ter deixado o Rio por estar cansado de trabalhar e não receber, de ter cachês reduzidos e condições de trabalho nada favoráveis. “Decidi vir pra São Paulo em um impulso”, contou. “Ligamos para amigos e conhecidos que pudessem hospedar a gente”, lembrou Cacá. Na cidade, Rodrigues e Cacá têm uma vida itinerante – e passam temporadas em casas de padrinhos e amigos. “Estamos procurando algo fixo, mas, claro, isso depende de trabalho.” 

Em São Paulo, tem participado de testes para propaganda, filmes e espetáculos. “O que acontece quando eu chego é que muita gente faz aquela cara de “ixiii, o ator de Cidade de Deus, esse teste deve ser carta marcada”, ri. 

Além da rotina de testes, Rodrigues tem se dedicado ao teatro. “Tinha pavor de palco. Fico nervoso toda vez que me apresento. Cheguei a fugir de ensaios. Agora, tenho conseguido usar esse medo a meu favor.”

No último ano, o ator ficou três meses em cartaz com o espetáculo Barulho d’Água – em que interpretava um refugiado africano que cruzava o Mediterrâneo. Depois da temporada, a peça começou a fazer o circuito em todo o Estado de São Paulo. Infelizmente, a crise econômica e os cortes em leis de fomento e incentivo acabaram com qualquer possibilidade de manutenção de uma turnê ou mesmo de apresentações regulares. “Não sou uma pessoa ligada à política, mas ela atingiu diretamente minha área de trabalho. Antes, você conseguia sobreviver com um espetáculo fazendo apresentações pelo interior. Hoje, cortaram tudo. A cultura está totalmente parada.” 

Apesar dos percalços financeiros, Rodrigues não tem uma história triste para contar, não tem escândalos em sua trajetória. Ele se considera um artista em constante luta para sobreviver única e exclusivamente do seu suor e talento. “As pessoas se interessam em saber da vida dos artistas, das coisas que deram errado, dos vícios e confusões. Mas a minha história é de luta, não tem mágoa, não tem escândalo”, garante.

Rodrigues evita os discursos mais polêmicos, mas pontua que, “se fosse loiro e de olhos azuis”, ele, provavelmente, estaria em outro estágio da carreira. “As coisas melhoraram, mas ainda existe uma dificuldade a mais para o ator e a atriz negra. Quando um personagem chega para um ator negro, a questão da raça vem sempre na frente. Os roteiros e sinopses que leio não são para personagens médicos ou advogados; são para médicos negros ou advogados negros.”

Mas o ator não perdeu a esperança. Segundo ele, existe a possibilidade de entrar para o elenco de uma novela ainda este ano. Além disso, Rodrigues tem se aplicado no estudo da língua inglesa. “Meu sonho é fazer carreira internacional, contracenar com grandes atores americanos, com gente que eu admiro”, acrescenta. 

Cosmética da fome

Quando foi lançado, em 2002, Cidade de Deus provocou discussões filosóficas. A crítica Ivana Bentes, por exemplo, enquadrou o longa na “cosmética da fome”, pois embelezava a miséria

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