Eric Gaillard/ Reuters
Eric Gaillard/ Reuters

Alexander Payne exibe 'Nebraska' no Festival de Cannes

Diretor deixa claro que quer falar sobre o que sabe - seja a paisagem ou a natureza humana

Luiz Carlos Merten - Enviado especial,

23 de maio de 2013 | 18h15

CANNES - Alexander Payne nasceu em Omaha, Nebraska, em 1961. Você pode eventualmente não gostar de seus filmes - Sideways, Os Descendentes -, mas seu humanismo, essas comédias dramáticas sobre pequenas vidas não são certamente a regra em Hollywood. Payne adquiriu prestígio, virou diretor de Oscar. Prepare-se porque dificilmente ele deixará de estar na disputa no ano que vem. Payne mostrou nesta quinta-feira, 23, em Cannes aquele que é seu melhor filme, Nebraska, e o título funciona um pouco como referência ou confissão. Payne deixa claro que quer falar sobre o que sabe - seja a paisagem ou a natureza humana. Nebraska lembra um pouco um filme de David Lynch que passou aqui em Cannes, anos atrás - História Real. Lembram-se? A história do velho que caía na estrada para visitar o irmão, a bordo de um carrinho daqueles que se usam em jardins.

Há outra travessias da América em Nebraska. A distância nem é grande - 1.200 km - e vira motivo de piada o fato de David Grant fazê-la em dois dias. David é filho de Woody e acompanha o pai, que, no começo de Nebraska, foge de casa. O velho está convencido de que ganhou US$ 1 milhão e guarda no bolso o folheto de uma promoção que lhe assegura o benefício. O filho, a mulher, o outro filho, todo mundo sabe que não existe dinheiro algum, mas Woody bate pé e David foge do emprego para levar o pai. A vida de nenhum dos dois está grande coisa e este é o tema (um dos) de Nebraska - o que é possível fazer para sacudir a vida da gente?

A história é narrada em preto e branco e parece previsível. Woody foi um pai distante, beberrão e a viagem servirá para aproximar a família. O verdadeiro acerto é um desacerto e aqui começa a subversão, senão a originalidade de Alexander Payne.

No meio do caminho, David faz uma parada na casa dos tios. Um primo está desempregado, outro saiu da cadeia, a vida das pessoas, como a economia, não anda bem. E quando surge a notícia de que Woody ficou milionário, todo mundo reivindica sua porção da fortuna. A situação chega a um ponto em que Woody e David são roubados, adivinhem por quem, e a fraude é revelada. Não há milhão. Pai e filho viram alvo de chacota, como nos filmes dos irmãos Coen. Toda família, e os falsos amigos riem deles.

Já existe um movimento na imprensa de língua inglesa para que Oscar Isaac seja indicado para o próximo Oscar, pelo novo filme dos irmãos Coen, Inside Llewin Davis. Outros gostariam de ver Michael Douglas ganhar aqui o prêmio de ator e também ser candidato ao Oscar pelo gay de Behind the Candelabra. O repórter pode não ser votante (da Academia) mas já torce por Bruce Dern, que faz Woody. Pai de Laura Dern, tem quase 80 anos e já fez igual número de filmes. Como coadjuvante de westerns, interpretou muitos malfeitores. Foi ator de Alfred Hitchcock (Marnie e Trama Macabra) e Hal Ashby (Amargo Regresso). Outro filme de velho ganhar em Cannes, depois de Amor, de Michael Haneke? Pode ser que não, mas será injusto se Nebraska não ganhar nada.

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