Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Alex Moratto fez um filme com a cara do Brasil e ‘Sócrates’ está no Spirit

Diretor explica como produção que custou US$ 20 mil acumula prêmios e está no Oscar independente

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

25 Novembro 2018 | 16h27

Filho de pai norte-americano e mãe brasileira – paulista –, Alex Moratto estudou cinema nos EUA. Em 2009, aproveitando as férias de verão decidiu que gostaria de estagiar no Brasil. Uma amiga da mãe recomendou-lhe o Instituto Querô, de Santos, uma ONG que faz um belo trabalho de inclusão pela arte com jovens de áreas de risco social. Moratto não se esquece da resposta que recebeu do Joca, que coordenava a área de produção – “Diz pro gringo vir.” Ele veio, fez amizades, deu aulas (de cinema). Modesto, diz que aprendeu mais, sobre arte e vida, do que ensinou.

Em 2014, sua mãe morreu e ele passou uma fase muito dura, difícil. Criado por ela, sofreu muito. Voltou ao Brasil, reencontrou os amigos do Querô e eles o incentivaram a desenvolver um projeto que Alex já vinha gestando para colocar para fora toda a sua angústia. “Juntei com histórias deles, apresentei o roteiro para a Tammy (Weiss, coordenadora do instituto).” Estava nascendo Sócrates (o filme). E Tammy – “Alex me disse que tinha US$ 20 mil para realizar o filme, mas não tinha. O máximo de que dispunha era de US$ 10 mil, mas achava que podia reunir o resto.” Mesmo assim, US$ 20 mil são uma ninharia. Tammy, com experiência de produção, fez milagres. Diminuiu as locações, os personagens. O filme fez-se. Começou outra batalha, a da finalização. “Ganhamos R$ 250 mil num edital de pós-produção. Parecia um dinheirão. ‘Estamos ricos!’ Corremos à 02 para a finalização e terminamos com um saldo de R$ 17 mil, que usei para duas diárias, refazendo cenas”, arremata Moratto.

Quanto? US$ 20 mil, menos de R$ 100 mil. E com esse dinheiro que é nada diante dos gastos de produção média do cinema brasileiro atual, Sócrates virou um fenômeno do circuito de arte. Foi premiado na Mostra, no Festival do Rio, no Thessaloniki International Film Festival. Venceu na quarta-feira o Mix Brasil – Festival da Cultura da Diversidade. Ganhou nos EUA o Ultra Indie Award do Woodstock Film Festival, outorgado ao melhor filme com orçamento inferior a US$ 200 mil – na verdade, foi dez vezes menos. E, cereja do bolo, no fim de semana passado Sócrates foi indicado para concorrer ao Spirit, o Oscar dos independentes, nos EUA. Concorre em três categorias. A premiação será em fevereiro e o filme está apontado para estrear em março. Com todo respeito pelo currículo de Cacá Diegues, na trilha aberta por Moonlight – Sob a Luz do Luar e Corra!, não é escusado pensar que Sócrates teria muitas chances no Oscar, mas não adianta, o filme não se habilitou. “Podemos tentar no ano que vem”, sonha Alex Moratto.

O custo, o trabalho com a ONG que usa a arte como ferramenta de inclusão social – tudo faz a aura de Sócrates e o filme já virou um ‘case’, mas cabe ir logo esclarecendo que cada filme tem suas necessidades de orçamento e produção. Sócrates deu supercerto. É forte, belíssimo. 

“Nunca esqueço, na Mostra teve gente que saía das sessões chorando”, lembra Tammy. Não pode virar uma forma, uma fórmula. Moratto colocou seu sentimento, a dor que o atravessava e dilacerava na história do garoto que dá nome ao filme. Encontrou o elenco certo, a equipe certa, e isso fez toda a diferença. “Quem era corintiano, seu pai ou sua mãe?”, pergunta a atendente, na loja em que o garoto vai procurar emprego? Logo na cena de abertura, a mãe morre e Sócrates passa o filme procurando emprego, tentando arranjar dinheiro para o aluguel do apartamento e o enterro da mãe. É ‘de menor’, e toma porrada do pai. Além de negro e pobre, Sócrates é gay e o pai é do tipo que prefere o filho morto a ser homossexual.

“Um filme barato como esse só pode ser feito com a entrega de toda a equipe”, diz Moratto. É um carinha com um sorriso meio triste, tímido. “Dá uma risada aí, cara”, provoca o repórter. “Então conta uma piada”, ele devolve na hora. Sócrates foi feito em áreas pobres da Baixada Santista. Tem a marca da realidade, da coisa vivida e sofrida. “Testamos 800 garotos para o papel do Sócrates. Alguns guardamos de reserva para o papel de Maicon, com quem Sócrates tem uma ligação intensa, e breve. Tales Ordakji, que ficou com o papel, era velho para fazer o Sócrates e também não era exatamente o que o roteiro pedia para o personagem do ‘amigo’, mas foi o escolhido e fez um trabalho maravilhoso. O próprio Christian não era do Querô. Sinuosos são os caminhos que levam muitas vezes a esses ‘acasos’. É como se os deuses do cinema estivessem interferindo para dar uma mãozinha.

O resultado é esse filme que, com certeza, dará o que falar em 2019.

ENTREVISTA - Christian Malheiros, ator

‘Estou aprendendo, tento não ficar deslumbrado’

Curiosos são os mecanismos de busca na internet. Se você procura por Sócrates, a primeira opção que vem é o telefilme de Roberto Rossellini sobre o filósofo ateniense que pregava o saber como uma virtude. “Conhece-te a ti mesmo”, era a máxima de Sócrates. Faz todo o sentido para o Sócrates de Alex Moratto. Seu nome evoca tanto o mítico jogador ligado à história da democracia corintiana como a busca do conhecimento pelo filósofo grego. O Sócrates de Moratto, negro, gay e pobre, está nessa jornada de afirmação da própria identidade. A seguir, a entrevista feita com o ator Christian Malheiros.

Conte para a gente essa história de haver vacilado quando o Moratto lhe confiou o papel de protagonista no filme. É verdade?

É, mas é preciso contextualizar. Venho da Baixada Fluminense, mas não necessariamente de áreas de risco. Não pertencia ao Instituto Querô, então meu perfil era um pouco diferente. De tanto trabalhar com eles, no filme, hoje entendo melhor. Mas eu não era do Querô. Não havia me habilitado para fazer teste para o papel. O Alex testou centenas de jovens. Como não estava encontrando, foi a campo. Visitou escolas, grupos de teatro. Eu já fazia teatro, lecionava para um grupo mais cru que eu. E foram esses alunos que insistiram, quando o Alex passou por lá, chamando para os testes. “Faz!”, eles diziam. Fiz, sem muita convicção de que fosse dar certo, mas todo mundo gostou. Fiquei animado, mas demorou muito e eu arranjei um trabalho. Precisava do emprego. Quando Alex me ligou, disse para ele que estava trabalhando. Achei que era mais um teste, e disse que ia pensar. Ele ficou puto. “Eu te ligo pra te dar o papel de protagonista do meu filme e você vai pensar?” E foi assim que eu soube que ele tinha me escolhido. Terminei aceitando, claro.

Agora mesmo foi difícil falar com você. Você está gravando – o quê?

Estou gravando uma série da Netflix, mas ainda é uma coisa sigilosa, eles não querem que a gente fale. Então não posso dizer nada, só que está sendo bacana.

Embora você não seja o Sócrates, é um universo que você conhece, não?

Com certeza, mas independentemente disso tem o roteiro, a leitura que fizemos, a interação com o restante do elenco, e muita gente vinha das áreas de risco. Então, tudo isso foi alargando meu horizonte, o do grupo. E o Alex sempre acreditou na gente. Éramos as ferramentas dele.

Você tem cenas muito intensas, de homoerotismo inclusive. Foram difíceis?

Uma coisa era ler o roteiro, trabalhar sobre ele com o grupo fechado, numa sala, parede branca. Outra coisa era atuar diante da equipe. Mas quando você sente que está na pele de outro, rola a energia e você faz o que é preciso para expressar a emoção.

Você concorre a melhor ator no Spirit. Como vive esse momento?

Com cautela. Não fizemos o filme pensando nos prêmios. Eles estão sendo consequência. Hoje mesmo estou indo a Natal, para um festival. Tudo isso é muito bacana, gosto muito do que estou fazendo, é um novo mundo. Mas vou com calma, passo a passo. Não quero me deslumbrar. Estou aprendendo.

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