"Alento" enfoca a "França profunda"

Com Le Pen no segundo turno,Alento, do francês Damien Odoul, pode contribuir para acompreensão da chamada "França profunda". Aquela Françaprovincial, ligada à terra, arraigada a valores, orgulhosa de sie avessa a tudo que lhe pareça estranho, pessoas ou costumes.Essa atualidade não passa de coincidência entre o lançamento dolonga-metragem no Brasil e o naufrágio do Partido Socialista naFrança. Mas ajuda a entender o filme. Alento (Le Souffle, no original) põe em primeiroplano o amadurecimento de um adolescente, David (Pierre-LouisBonnetblanc). Mas este primeiro plano só pode ser compreendidolevando-se em conta aquilo que o sustenta - o ambiente másculo,duro, misógino e conservador em que ele vive. David experimentaum rito de passagem. Pela primeira vez será admitido numa festade homens e poderá beber como eles. Poderá, não - deve beber, para ser ele próprio um macho.Enche a cara, passa mal e, ainda zonzo, começa a vagar pelasimediações da fazenda. Encontra um amigo, falam disso e daquilo,mentem, filosofam sobre mulheres, assunto que não dominam. Enfim, uma típica conversa de adolescentes e que termina mal. Há uma beleza estranha nesse trabalho em preto-e-brancode Odoul. Às vezes ele assume um tom francamente documental,como se quisesse enfrentar a realidade na base do corpo-a-corpoe, em outros momentos, ousa delirar, imitando o que se passa nacabeça de um garotão bêbado, atordoado tanto pela testosteronaquanto pelos calvados, digerindo mal a violência contida que ocerca. Há certo naturalismo na maneira como Odoul introduz oespectador à crueza do ambiente do interior. David desperta esai de uma cama que não deve ser exatamente um exemplo deconforto e limpeza. Na parte externa, o dono da casa, tio deDavid, prepara a festa. E isso significa matar uma ovelha para oassado. Nenhum detalhe dessa matança é poupado ao espectador.Nem o que vem depois, a retirada das vísceras do animal e acolocação da carcaça no espeto. Não chega a ser agradável, e nemse recomenda para quem tenha marcado uma churrascaria paradepois do cinema, mas é recurso válido para introduzir oespectador à crueza da vida no campo. Esse é o tom da coisa: um mundo agreste, sem sutilezas,onde embrutecer-se é condição de passagem para a maturidade.David, você verá, entende essa mensagem ao pé da letra e isso oleva à perdição. O ambiente parece determinante no comportamento dogaroto, embora haja um componente psicológico, mas agindo portabela. Sabemos que ele mora com o tio, longe da mãe e sem opai. A certa altura questiona o tio sobre isso, e recebe comoresposta que um tio é um tio e nunca será substituto à alturapara o pai verdadeiro. Nada mais é dito, nem perguntado, mas sepercebe que o garoto não tem muitas referências ao seu dispor. Cria-se nesse meio limitado e completa sua deseducaçãoouvindo música pauleira no walkman. Enfim, Alento é um filmesobre a estreiteza mental, sobre uma pequena comunidadeinvolucrada em si mesma, sem contato com culturas alternativasque a relativizem. Nela, a intolerância e a hostilidade para com o outroexistem sempre em estado latente. Basta uma pequena faísca paraatear fogo a esse ambiente explosivo porque alimentado de simesmo, com todas as perversões que essa situação comporta. Essepequeno contexto dramático fala muito sobre o que acontece aospaíses - fora dos olhos das grandes cidades, onde pensamentosmuito elaborados às vezes contribuem mais para embelezar arealidade do que para desvendá-la. Serviço - Alento (Le Souffle). Comédia. Direção de Damien Odoul.Fr/2000. Duração: 77 min. 12 anos

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