Alemanha é a grande vencedora da Mostra Internacional de Cinema

'Entre Mundos', de Feo Aladag, que venceu em 2010, é a melhor ficção; 'A Guerra das Patentes', o melhor documentário; veja lista

Luiz Carlos Merten e Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

29 de outubro de 2014 | 22h15

Atualizado às 22h15

E o júri de ficção da 38.ª Mostra, integrado, entre outros, pelos cineastas Murilo Salles e Mariana Rondón, outorgou ontem à noite o troféu Bandeira Paulista a Entre Mundos, produção alemã dirigida pela austríaca Feo Aladag. Na categoria documentário, o júri, integrado por Thom Andersen, premiou A Guerra das Patentes, também da Alemanha, de Hannah Leonie Prinzler. Foi a segunda vitória de Feo em São Paulo. Em 2010, a atriz que virou diretora recebeu sua primeira Bandeira Paulista por Quando Partimos, sobre mulher que foge a um casamento que a oprime em Istambul e se instala em Berlim. Como Entre Mundos, Quando Partimos também trata de afeto e choques culturais.

"É um filme brilhante em todos os domínios de sua realização, da cinematografia até os atores, consegue ao mesmo tempo levar-nos ao centro de um conflito armado, com muito realismo e tocar-nos profundamente por todas as questões humanas, como tristeza, solidariedade e traição", afirmou Murillo Salles, membro do júri, ao anunciar a decisão.

"Muito obrigada por este prêmio. Estou muito orgulhosa. Nosso filme foi todo filmado em locações no ano passado para que pudesse atingir o máximo em autenticidade em ambiente, elenco e atmosfera. Tínhamos a esperança de ao colaborar com equipe e elenco afegãos poderíamos mostrar que existe uma cooperação pacífica e frutífera entre o Afeganistão  e um país do ocidente em nível cultural, de que há algo que possa ser criado ser criado em conjunto além da cooperação militar", agradeceu a diretora, por meio de uma mensagem.

O novo longa da diretora mostra um pelotão de soldados alemães na Guerra do Afeganistão. Diferentemente de Kathryn Bigelow, que, quando filma a guerra, é para mostrar que sua direção de cena consegue ser mais ‘viril’ que a de qualquer macho, Feo não abre mão das sensibilidade. O que ela quer mostrar é a fragilização do herói. O comandante de seu pelotão passa o filme todo se desculpando. Quando resolve agir, o gesto, por mais bem-intencionado que seja, desencadeia uma estratégia equivocada. As vítimas são os próprios afegãos, e o garoto com quem o comandante se envolve (e que está na mira do Talibã). Entre Mundos é bom, senão exatamente grande.

Outra diretora - Hannah Leonie Prinmzler - também quer falar sobre uma guerra que a maioria nem sabe que ocorre, mas que atinge a vida de quase todas as pessoas do mundo. O documentário dela mostra como é possível patentear não importa o quê. Você poderia pensar que a patente, para salvaguardar o direito intelectual, aplica-se só às invenções. Que nada - das cores às plantas, dos animais aos genes humanos, as patentes viraram armas estratégicas de grandes empresas. E as consequências não são apenas econômicas. Atingem a qualidade de vida e até a luta por sobrevivência de pacientes de câncer. Daí a importância de A Guerra das Patentes, como proposta para reflexão.

O público da Mostra premiou A História da Eternidade, de Camilo Cavalcanti, como melhor ficção brasileira, e Cássia, sobre a cantora Cássia Eller, como melhor documentário, também brasileiro. A crítica outorgou seu prêmio a Leviatã, do russo Andrey Svyagintsev. E a Abraccine, Associação Brasileira dos Críticos de Cinema, premiou Casa Grande, de Fellipe Barbosa, como melhor brasileiro. A repescagem da Mostra começa nesta sexta-feira e prossegue durante toda a semana no Cinesesc, com a apresentação de 27 filmes. Os premiados, e também algumas raridades, como o deslumbrante O Sol do Marmelo, de Victor Erice, de 1993, e Antes, o Verão, de Gerson Tavares, de 1968, que adapta o romance homônimo de Carlos Heitor Cony, com Norma Bengell e Jardel Filho suntuosamente filmados em P&B por José Rosa.

O Prêmio Humanidade desta edição da Mostra foi para a atriz Geraldine Chaplin, que, além da homenagem, apresentou também seu novo filme, Dólares de Areia, com estreia marcada para dezembro. 

"É muito inesperado receber este prêmio. Obrigada! É uma grande honra e um privilégio estar aqui. Obrigada, Renata, por esta Mostra tão valente e única. Estou aqui para apresentar Dólares de Areia e não sei como. O que posso dizer é que é um filme incrível, maravilhoso, que estou muito orgulhosa de estar neste filme", declarou a atriz, encerrando a premiação, que contou em seguida com a exibição de Dólares de Areia.


VENCEDORES

Prêmio do Júri - Ficção

Entre Mundos, de Feo Aladag

Prêmio do Júri - Doc

A Guerra das Patentes, de Hannah Leonie Prinzler

Prêmio do Público

Do Que Vem Antes, de Lav Diaz

Relatos Selvagens, de Damián Szifrón

SAM, de Elena Hazanov

Prêmio da Crítica

Leviatã, de Andrey Zvyagintsev

Prêmio da Abracine

Casa Grande, de Fellipe Barbosa

Prêmio Humanidade

Geraldine Chaplin

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