Sérgio Castro|Estadão
Sérgio Castro|Estadão

Alê Abreu inicia, nos EUA, a disputa pelo inédito Oscar de animação com 'O Menino e o Mundo'

No dia 8 de fevereiro ele participa do almoço com os indicados ao prêmio

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2016 | 05h00

A fantástica e não tão impossível caminhada rumo ao primeiro Oscar para o Brasil começa amanhã para o diretor e animador Alê Abreu. A partir das 11 horas de Los Angeles (17h em Brasília), ele participa do almoço oficial oferecido pela Academia de Hollywood a mais de 150 indicados na premiação deste ano. “Quero estar na foto oficial”, brinca ele que, com O Menino e o Mundo, vem conquistando território – nos EUA, a animação está em exibição em cem salas (eram 20). O filme logo será lançado em DVD e Blu-Ray no território americano. E, no site Rotten Tomatoes, que reúne todas as críticas publicadas em inglês, o longa atingia 93% de aprovação até a sexta-feira, 5.

São muitas transformações na rotina de Abreu que, desde o dia 14 de janeiro, quando foram anunciadas as indicações, virou de ponta-cabeça. “Tão logo foi divulgado o nome do filme, meu computador quase enlouqueceu, com tantas mensagens entrando simultaneamente pelo Facebook”, recorda-se.

Na manhã daquela quinta-feira, ele estava terminando a reforma de uma casa na Serra da Mantiqueira, onde pretende montar seu refúgio criativo, e, sozinho, acompanhava a lista dos indicados por meio de um site, em seu computador. Quando ouviu as palavras mágicas “Boy and the World”, título da animação em inglês, não havia quem abraçar. E, apesar das inúmeras mensagens pipocando no seu Facebook, Alê Abreu ainda não sabia que faria uma volta no tempo.

Para ele, cada novo processo criativo é uma experiência de vida. “É um momento muito especial de entrega, em que tudo ao meu redor tem um significado específico”, conta Alê que, durante o trabalho de O Menino e o Mundo, viveu um processo quase psicanalítico ao conviver simultaneamente com memórias de infância (especialmente da mãe, que lhe ensinou a misturar as cores) e a admiração por artistas como Miró, Kandinsky e Paul Klee.

“Na época, eu escutava muita música latino-americana de protesto, como Violeta Parra, e pensava em realizar um documentário sobre esse período”, conta ele que, mesmo imerso no trabalho, descobriu um novo caminho ao se deparar com o desenho de um menino com corpo de palito, rascunho que nem se lembrava de quando tinha feito. Esse sentimento de urgência traduzido em poucos traços foi determinante: Canto Latino deixou de existir para nascer O Menino e o Mundo.

Foi um processo poderoso – à medida em que desenhava, Alê nem sempre entendia a coerência daquela história que, além de relação familiar, tratava ainda de desigualdade, desemprego, sofrimento. “Eu ainda estava influenciado pelas canções de protesto e só fui compreender determinados detalhes quando o filme ficou pronto.”

Tamanha efervescência logo prestou suas contas: Alê ainda sente o incômodo de pequenas doenças a que foi acometido durante aquele período em que varava madrugadas criando. “Eu me dividia entre produtor e criador, o que me custava muito tempo e prejudicou minha saúde”, conta ele, que precisou trabalhar de forma espartana para não ultrapassar o magro orçamento de R$ 1,5 milhão.

Mas foi recompensador – lançada em 2014, a animação contabilizou um público de 35 mil pessoas, a maioria não contendo as lágrimas durante a sessão. E, agora, a disputa pelo Oscar, na qual Alê Abreu não se considera o azarão. “Acho que só perdemos em chance para Divertida Mente e Anomalisa. E não estamos muito atrás”, diz ele, que receberá R$ 300 mil da Spcine para a campanha internacional.

A disputa pela estatueta dourada fez com que o animador retornasse a um mundo do qual já se sentia distante. “Cada animação que termino é também o fim de um processo. Hoje não sinto mais a mesma emoção ao ouvir aquelas músicas de protesto. Gostaria, na verdade, de ficar concentrado em meu próximo trabalho, criando um novo universo.”

Trata-se de Viajantes do Bosque Encantado, que fará referência aos conflitos no Oriente Médio. Alê prepara também Imortais, no qual vai trabalhar ao lado de Luiz Bolognesi e Laís Bodanzky, casal que também trata a animação com respeito.

Aos 44 anos, Alê Abreu comprova que a experiência, essa negociação consciente entre o eu e o mundo, é uma característica irredutível da vida, e não há vivência mais intensa do que a arte.

'A trilha é um personagem do filme também' - Ruben 'Binho' Feffer - AUTOR DA TRILHA SONORA

A história seria a mesma se a trilha sonora fosse outra?

A resposta deveria ser que sim, que uma trilha não pode alterar uma história. Mas isso num filme convencional, que é exatamente o que O Menino e o Mundo não é!

O quanto a trilha participa da narrativa?

A trilha não só participa, mas aqui ela é personagem. A flauta é (literalmente) o instrumento de expressão que marca a presença do pai, é a forma que ele se comunica e deixa rastros para seu filho.

Você já disse que não sente criar, mas encontrar algo que já estava lá...

É a sensação de que não sou dono do que crio. Parece ser algo que encontro, que vou seguindo pistas e identificando padrões para encontrar.

 

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