Alain Resnais é tema de ciclo da Cinemateca

Alguns anos atrás qualquer apreciador de cinema digno desse nome tinha na ponta da língua dois ou três títulos de filmes de Alain Resnais. Hoje já não é mais assim. Resnais saiu um pouco de circulação. Um tanto porque o cinema francês não provoca mais aquele tipo de impressão entre o público cult, que migrou para o cinema iraniano, chinês ou americano independente. Outro tanto porque é cinema intelectual, e este, de modo geral, já não faz tanto a cabeça das pessoas, mesmo as cultas - fato "normal" numa época tão antiintelectual como a nossa. De qualquer forma, é sempre uma boa notícia um ciclo como este Sete Vezes Resnais, que a Cinemateca promove de hoje a 27. Nesse primeiro dia de programação há três amostras do talento de Resnais - A Guerra Acabou (1966), Meu Tio da América (1980) e o clássico Hiroshima, Meu Amor (1959). A Guerra Acabou, com roteiro de Jorge Semprum, mostra ecos da Guerra Civil Espanhola na história de um comunista espanhol exilado em Paris depois da derrota dos republicanos para os fascistas de Franco. Ecos de outra guerra estão em Hiroshima, desta vez com roteiro assinado por Marguerite Duras. No relacionamento entre uma francesa (Emmanuelle Riva) e um arquiteto japonês (Eiji Okada). Em Meu Tio da América, roteiro de Jean Gruault, um cientista, o professor Henri Laborit, explica sua teoria comportamental acompanhando a narrativa de três histórias que se entrecruzam. Para falar do imaginário da guerra, Resnais convocou gente do porte de Duras e Semprum. Quando resolveu dialogar com o nouveau roman, escolheu ninguém menos que Alain Robbe-Grillet, um dos nomes representativos dessa tendência literária, e o resultado foi outra obra-prima como O Ano Passado em Marienbad, infelizmente ausente da mostra. Em entrevista, Resnais, modesto, costuma dizer que o trabalho de filmar já é imenso. Se fosse acumulá-lo com o de escrever, ficaria louco. O espectador que não está acostumado com a obra de Resnais irá conhecer um cineasta preocupado com questões, digamos assim, filosóficas, como o tempo e a memória. E, portanto, com a dimensão da morte para a experiência da vida humana. Um tema como o acaso também o fascinou. Transformou-o num filme recente Smoking No Smoking (1993), dois longos episódios (146 e 147 minutos), baseados na peça de Alan Ayckbourn, que acompanha os destinos possíveis de dois casais, Celia e Toby; Rowena e Miles, ambos interpretados por Sabine Azéma e Pierra Arditi. O filme trata do acaso e das alternativas. Procura mostrar como cada opção abre um destino possível e fecha outro. Assim, a decisão de acender ou não um cigarro no primeiro episódio fará a história bifurcar-se e assim em sucessão. Somos vítimas e beneficiários dessas pequenas decisões das quais não temos consciência. Mais recente ainda, de 1997, é Amores Parisiense, tradução brasileira para On Connaît la Chanson. Mais uma vez o tema do mal entendido, que altera destinos, está no centro das preocupações do autor. Desta vez são seis personagens, em uma ciranda amorosa atípica, movida por uma série de canções francesas bastante conhecidas. Nesse filme, com roteiro de Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri, os personagens parecem conduzidos pelo teor romântico das canções, como se o comportamento amoroso fizesse parte de uma estrutura já pré-montada pelas letras das músicas famosas. Na verdade, o tema desse filme fala do amor não como atitude natural, mas como invenção romântica. Fecha a seleção o curioso Quero Ir para Casa (1989). Quem assina o roteiro é o grande cartunista americano Jules Feiffer. A história é auto-referente: o cartunista Joey Wellman tem uma filha que foi a Paris estudar literatura e menospreza a arte do pai. Resnais aproveita o enredo para discutir a relação entre arte popular e arte culta, o sentimento de estranheza de estar num país que não é o seu e a oposição de mentalidades entre América e Europa - tema que anda bem na moda. E, claro, presta sua homenagem às histórias em quadrinhos, pelas quais é apaixonado. Para efeitos de análise, Resnais é, em geral, alinhado em torno dos seus colegas de Nouvelle Vague, como Godard, Truffaut e Rohmer. Não é errado. Mas, na verdade, fez uma carreira à parte, embora tenha pertencido ao grupo original da Cahiers du Cinéma, que aglutinou jovens críticos que depois viraram cineastas. Sua trajetória é singular, feita na periferia - e intensamente original. Vale conhecê-la. E, para quem já a conhece, reencontrá-la. Ciclo Sete Vezes Resnais - Sala Cinemateca. Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Mariana. Tel. 5084-2318Confira a Programação: 15/02 16h35 - A guerra acabou 18h55 - Meu tio da América 21h15 - Hiroshima, Meu Amor 16/02 15h15 - Smoking 18h00 - No Smoking 20h45 - Amores Parisienses 17/02 15h30 - No Smoking 18h15 - Smoking 21h00 - Quero ir Para Casa 18/02 16h45 - Amores Parisienses 19h00 - Hiroshima, Meu Amor 20h45 - A Guerra Acabou19/02 14h00 - No Smoking 16h45 - Amores Parisienses 19h00 - Quero ir Para Casa 21h00 - Meu tio da América 20/02 14h00 - Smoking 16h45 - Hiroshima, Meu Amor 18h30 - Amores Parisienses 20h45 - A Guerra Acabou 22/02 16h25 - Meu Tio da América 18h45 - Quero ir Para Casa 20h45 - Amores Parisienses23/02 15h15 - Amores Parisienses 17h30 - Smoking 20h15 - No smoking24/02 15h15 - Amores Parisienses 17h30 - No Smoking 20h15 - Smoking 25/02 16h25 - A Guerra Acabou 18h40 - Quero ir Para Casa 20h40 - Meu Tio da América26/02 13h45 - Smoking 16h30 - No Smoking 19h15 - Hiroshima, Meu Amor 21h00 - Amores Parisienses 27/02 15h10 - Meu tio da América 17h30 - Smoking 20h15 - No Smoking

Agencia Estado,

15 de fevereiro de 2005 | 11h33

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