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Alain Guiraudie considera ‘Na Vertical’ seu longa mais ‘queer’ e diz que foi levado pelo personagem

'Eu mesmo me perguntava aonde queria chegar, enquanto escrevia'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2017 | 04h00

Damien Bonnard esteve no Brasil para acompanhar as sessões de Na Vertical no Festival Varilux. Participou de debates com o público no Rio e em São Paulo. Foi a Belo Horizonte. “Achei o público de São Paulo mais cosmopolita. O daqui (Bonnard conversou com o repórter no Rio) teve reações mais viscerais. Dois espectadores monopolizaram o debate e estavam indignados. Curiosamente, nem foi tanto as cenas de sexo homo e hétero. Foi o parto. Um deles disse que nunca viu nada mais chocante no cinema.”

Depois de Bonnard, o próprio Alain Guiraudie conversou com o repórter pelo telefone, de Paris. Não se surpreendeu nem um pouco com as reações desses espectadores. Admite que Na Vertical talvez seja mais difícil que Um Estranho no Lago, seu longa precedente, que foi um êxito internacional no circuito de arte. “Eu mesmo me perguntava aonde queria chegar, enquanto escrevia. Como os documentaristas, que dizem que não sabem o filme que vão fazer, eu me deixei levar. O personagem é movido pelo desejo. Hétero, homo. Dei livre curso à sua libido.” 

Guiraudie, de 52 anos, iniciou-se com curtas e médias em 2000. Seu romance Ici Commence la Nuit, de 2014, foi uma das fontes para o novo filme. Um homem tinha desejo por um velho de mais de 80 anos. “Era tão velho que não faziam sexo”, brinca. Em Na Vertical, Leo/Bonnard ronda um garoto, faz um filho numa mulher e vai para a cama com o pai dela. O diretor reconhece que é um filme sobre a França profunda. “O velho, que não é tão velho, não é gay. Nem Leo. Creio até que esse velho possa ser homofóbico, nunca me perguntei nem tentei esclarecer a questão. É um filme que ainda não tenho distanciamento para abordar todas as questões que propõe.”

A vida sem tabus. Há algo da brutalidade de Bruno Dumont nessa representação do mundo rural. Em A Humanidade, havia o grande plano da vagina dilacerada da garota morta. Aqui, existem os planos da vagina e o ‘acouchement’ - o parto. Guiraudie diz que não pensou especificamente em Gustave Courbet, A Origem do Mundo, mas sabe que está lá. Apesar dessa presença cênica tão forte da mulher, ele talvez surpreenda ao dizer que é seu filme ‘mais queer’. Um Estranho no Lago, embora se passasse numa praia gay de nudistas, contando a atração de um dos frequentadores por um assassino em série, nunca foi ‘queer’ para ele e, por isso, Guiraudie nunca estranhou o sucesso de seu filme junto a plateias de heterossexuais.

“Nesse aqui, sempre soube que teria problemas, mas era algo que não podia controlar. Os próprios personagens me levaram por esse caminho.” Guiraudie reconhece sua atração por um tipo de personagem. “Gosto de mostrar gente sem chão, que vai até o fundo do poço ou patina na m... Só assim acredito que possam dar a volta por cima.” Na história, Leo é um roteirista em crise. Uma cena o mostra diante da folha em branco. O filme nasceu de uma constatação - a França rural é um país de lobos que atacam cordeiros e dizimam rebanhos. Leo parte em busca do lobo. Rester vertical. O título carrega uma metáfora. “Se o homem se curva perante o lobo, ele ataca. É preciso manter-se ‘na vertical’. O lobo me mete medo, mas fascina. Na França, há todo um debate. Deve ser protegido, embora cause dano. Um ditado diz que o homem é o lobo do homem. E, como homens, devemos ficar na vertical.” 

 

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