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Alain Delon comemora seus 80 anos com netos e cães

O jovem ator talvez tenha sido o homem mais belo do mundo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2015 | 03h00

Há dois anos, Alain Delon deu a Paris Match uma entrevista que repercutiu muito. Disse que perdeu o interesse pelo mundo e que esperava passar o resto da vida cercado pelos netos e por seus animais, “para não morrer sozinho”. Reconheceu que costumava ser uma pessoa apaixonada. “Hoje, o que me falta é paixão.” Na tela, como protagonista do clássico Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti - projetado há pouco na Mostra, numa impecável versão restaurada pela Film Foundation de Martin Scorsese, em parceria com a Cineteca de Bologna -, o jovem Delon talvez tenha sido o homem mais belo do mundo. Chegou a ser votado como tal. A força, a tristeza e a inocência radiosa que confere a Rocco fazem dele um mito imorredouro do cinema. Que seja hoje esse homem amargurado e desiludido pode decepcionar seus fãs. Mas o próprio Delon reconhece, em Paris Match, que teve uma grande vida e que aquilo não poderia durar para sempre.

“Muita gente que amo já morreu. Até tentar rever os velhos filmes virou uma experiência dolorosa.” Não há como não pensar nessas coisas nesse domingo tão especial. Delon está completando 80 anos. Nasceu em Sceaux, em 8 de novembro de 1935. Passará a data, presumivelmente, com os netos e os cães e gatos. Poderá até lembrar das dificuldades da infância. O pai era dono de um cinema em Sceaux, comuna francesa na região administrativa da Ilha-de-França, no departamento de Hauts-de-Seine. Os pais separaram-se quando ele era muito pequeno. Poderia ser o garoto Antoine Doinel de Os Incompreendidos, se aquela não fosse a biografia de François Truffaut. Sentia-se rejeitado, cresceu revoltado. Trocou várias vezes de colégio. Era indomável a qualquer noção de disciplina.

Aos 17 anos, ante a perspectiva de se tornar um delinquente, atendeu ao chamado de um cartaz de recrutamento - ‘Aliste-se na aviação, você conhecerá o mundo.’ Mas o contingente daquele ano estava formado e o jovem Delon, como Rocco, foi ser soldado na Indochina, onde participou dos últimos combates antes da intervenção dos EUA no Vietnã. Desmobilizado, foi para Paris, ser feirante no mercado Les Halles. Vendia frutas e verduras, carregava sacos. O lugar servia uma sopa. Na madrugada, era frequentado por prostitutas e seus gigolôs, mas também por artistas. Um certo Jean-Claude Brialy tornou-se seu amigo e convenceu Delon de que devia descer com ele para a Côte d’Azur, para tentar a sorte no Festival de Cannes. Era o ano de 1957. Delon era o que os franceses chamam de ‘jeune loup’, um lobo. Chamou a atenção da atriz Edwige Feuillère, que o colocou num filme por ela estrelado. Bem mais jovem, Delon foi amante de Edwige por um tempo, mas, a essa altura, já havia chamado a atenção dos produtores. Fez Christine, formando dupla com Romy Schneider, jovem e bela como ele e que estouraria em todo o mundo na série sobre a imperatriz Sissi. Iniciaram um romance de conto de fadas.

Em 1959, um diretor de muito prestígio, mas que os ‘jovens turcos’, críticos da revista Cahiers du Cinéma, amavam odiar, resolveu dar o troco. René Clément ganhou mais prêmios em Cannes do que todos os grandes da nouvelle vague juntos. Fez um filme ‘nova onda’, O Sol por Testemunha, colocando Delon na pele do escroque capaz de tudo, até de matar. A escritora Patricia Highsmith, criadora do personagem - Tom Ripley -, gostou da adaptação e do ator. No mesmo ano, Visconti estava fechando o elenco de Rocco. Já escolhera Katina Paxinou, a mãe, Renato Salvatori, o irmão, Simone. Os coprodutores franceses insistiam para que ele escolhesse Brigitte Bardot, ou Pascale Petir, ou mesmo Jeanne Moreau, mas ele decidiu que Nadia seria outra francesa, Annie Girardot, a quem havia dirigido no teatro, em Dois na Gangorra. Paolo Stoppa, Suzy Delair e Roger Hanin estariam no elenco. A jovem Claudia Cardinale, também. Mas faltava Rocco. A filmagem aproximava-se e nada de Visconti decidir-se pelo ator que faria o papel. E, então, uma agente lhe apresentou Delon. Diante do garoto de 24 anos, Visconti teria dito. “Encontrei meu anjo.” E em francês e italiano - “Tu sei Rocco, tu es Rocco.”

Pois para Visconti, o tempo todo, a essência de Rocco e Seus Irmãos, a par da migração e do crime de amor, era a história de dois anjos caídos, os irmãos Rocco e Simone. Tudo isso é história. Delon fez outros filmes não tão bons com Clément e outra obra-prima com Visconti, O Leopardo. Olhando as linhas de seu rosto, Jean-Pierre Melville descobriu que o anjo de Visconti, o assassino de Clément, podia ser durão e fez dele o matador profissional de O Samurai. Consagrado, Delon virou astro de ação de policiais. Filmou com Jean Gabin, Lino Ventura, Jean Paul Belmondo, sob a direção de Henri Verneuil, Jacques Deray e outros. O romance com Romy terminou, teve outras belas mulheres (Mireille Darc, Nathalie Delon). E teve outros encontros notáveis com grandes diretores. Fez A Primeira Noite de Tranquilidade com Valerio Zurlini, Mister Klein com Joseph Losey e Nouvelle Vague com Jean-Luc Godard. Transformado em mito, ganhou o César, o Oscar francês, por Quartos Separados, de Bertrand Blier, em 1984. E, em 1995, Berlim lhe outorgou um Urso de Ouro de carreira. Na política, migrou para a direita, apesar dos autores de esquerda com quem trabalhou. Chamado a apresentar a versão restaurada de O Sol por Testemunha em Cannes, 2013, surpreendeu todo mundo dizendo que Clément foi seu mestre. Ingratidão com Visconti? Só esperamos que hoje, revendo sua vida, ele perceba como tudo isso valeu a pena, para todos nós.

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