DAMON WINTER/NYT
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Al Pacino fala sobre 'The Humbling'

Filme sobre planos de aposentadoria é baseado em livro de Philip Roth

Ian Spelling, The New York Times

02 de fevereiro de 2015 | 03h00

Al Pacino é o astro de The Humbling (O Último Ato) no papel de Simon Axler, um ator envelhecido que vem perdendo o domínio da sua profissão e possivelmente o controle dos seus sentidos. Um dia, durante uma cena no palco, ele mergulha no fosso da orquestra e é enviado para um hospital psiquiátrico. Ao sair, busca consolo nos braços de Pageen (Greta Gerwig). Filha de amigos do ator, Pageen é uma lésbica que outrora teve uma queda por Axler e eles então começam um relacionamento.

A história repete vagamente a de Birdman (em cartaz), mas The Humbling, na verdade, é a adaptação de Barry Levinson de um romance de 2009 de Philip Roth que tem o mesmo título. Quanto ao personagem de Axler, ele se aproxima um pouco de Pacino, que em abril completará 75 anos de idade.

O filme foi lançado em 23 de janeiro e está disponível em vídeo sob demanda. Durante uma recente entrevista por telefone, de um hotel em Los Angeles, o encantadoramente loquaz Al Pacino descartou a inevitável comparação entre ele e o personagem do filme.

“Eu me identifico com qualquer papel que faço se realmente quero fazer esse papel. Encontrei minha própria maneira de me adaptar a Simon. Vou lhe dar um exemplo: Simon tem esse bloqueio, mas quando Philip Roth escreveu a história, tenho certeza que ele quis fazer referência ao bloqueio do escritor. Atores realmente não sentem isto. Eles não têm um bloqueio de ator; de repente só não querem mais atuar”, disse. 

“Eu sempre me interessei por ação e quis experimentar essa situação. As coisas dão errado, especialmente com a idade. Isso é mais óbvio quando se trata de atletas, mas os atores são atletas emocionais e você tem de ter energia, estamina para lidar com os rigores do teatro ao vivo. Essa estamina é muito importante”, completou. 

Pacino citou O Fiel Camareiro (1983), estrelado por Albert Finney, como um filme sobre a interpretação que capta algo da natureza da arte. “Finney exsuda à exaustão como astro de uma trupe itinerante de atores que viaja de cidade em cidade levando peças de Shakespeare”. “É muito profundo e intenso. Está no seu âmago e ele literalmente morre por isso no filme. Acho que parte do que ocorre com Simon é que ele está chegando aos 70, aceita papéis importantes e vem perdendo a energia e a capacidade mental. Conheço atores mais jovens do que eu que não fazem mais teatro porque não conseguem decorar o texto. Esse temor da técnica que vai se deteriorando eu compreendo.” Ele vai além: “Sei que as pessoas irão me comparar com Simon e achar que o filme é autobiográfico. Mas tenho filhos, tenho família e faço muitas coisas na minha vida. Não sou Simon, mas eu o compreendo. O fato de a história ser sobre um ator que perdeu interesse em atuar e deseja um outro tipo do que chama de ‘vida civil’ não só é divertido, mas factível”.

Quanto a Gerwig, Pacino elogiou sua coestrela de 31 anos. “Barry a sugeriu. Ela chegou e eu me disse ‘é isso aí’. Ela não só é uma atriz maravilhosa, mas entende este mundo. Existe uma grande diferença de idade, mas você não acha que eles se pertencem porque os dois são excêntricos e estão num mundo que lhes oferece todas essas posturas, ideias e inclinações? A diferença de idade pode ser de 40 anos, mas de certo modo isto não tem importância”. 

A mãe e o pai de Greta a criaram no teatro, de modo que ela já tinha uma conexão com essa forma de arte. Ela se conhecia bem e sabia o que estava fazendo. Uma atriz assim é difícil de encontrar, mas nós a encontramos”.

Há uma outra situação em The Humbling que torna menos clara a distinção entre fato e ficção. Necessitando de dinheiro, mas temendo voltar à cena depois do seu mergulho no palco que rendeu muita fofoca, Axler analisa uma oferta de representar uma linha de produtos para cuidados do cabelo. Algumas pessoas podem achar que seria uma situação equivalente à de Pacino no filme em que ele contracenou com Adam Sandler – Cada um Tem a Gêmea que Merece (2011), comédia que foi denegrida pela crítica e fracasso de bilheteria.

O que leva a uma pergunta: todos os filmes de Al Pacino têm de ser como O Poderoso Chefão (1972), Um Dia de Cão (1975), Vítimas de Uma Paixão (1985), Perfume de Mulher (1992), Fogo Contra Fogo (1995), Insônia (2002), Você Não Conhece Jack (2010) ou Phil Spector (2013)? Ele não tem direito a escolher um papel errado se desejar? “Não importa, você verá as pessoas fazendo essa pergunta porque realizei muitas coisas. Algumas delas foram muito abrangentes e você é comparado a tudo o que já fez. As pessoas gostam de se referir a Cada um Tem a Gêmea que Merece, e não me importo. Quando elas assistem, é uma comédia e elas dão risadas.”

“Além disso, às vezes a fama se antecede a você. Certa vez um entrevistador muito jovem me disse: ‘Você é muito famoso. Quando interpreta um papel, como supera a fama?’. Eu respondi que na verdade não sei como fazer isto. Uma cirurgia plástica? Talvez o teatro grego, com máscaras, fosse divertido’’.

Em breve, Al Pacino estará com uma nova peça na Broadway, China Doll, de David Mamet. Pacino e Mamet se conhecem há muito tempo. Pacino estrelou a peça American Buffalo (1983), versão filmada de Sucesso a Qualquer Preço (1991), e o filme da HBO com roteiro de Mamet – Phil Spector, além de uma nova montagem para o teatro de O Sucesso a Qualquer Preço, em 2012.

Também na agenda estão duas produções mais independentes. Manglehorn, de David Gordon Green, e Danny Collins, de Dan Fogelman. Pacino descreveu Manglehorn como um drama sobre um solitário serralheiro de uma pequena cidade do Texas e Danny Collins como uma comédia romântica sobre um rock star já velho. E acrescentou rapidamente que apesar de interpretar um cantor ultrapassado em Danny Collins e o papel que tem em The Humbling, os dois filmes são muito diferentes.

Robert Altman muitas vezes declarou que desejava trabalhar até o último suspiro e foi o que realmente ocorreu. Pacino, por seu lado, insiste que consegue se imaginar, um dia num futuro não tão distante, saindo completamente de cena e deixando para sempre a profissão de ator. “Existem tantas outras coisas na minha vida e talvez esta seja uma das razões pelas quais consigo pensar nisso.”

“Tenho filhos muito jovens”, disse o ator, que é pai dos gêmeos Anton e Olivia, de 14 anos, com Beverly D’Angelo, e também tem uma filha de 25 anos, Julie, com Jan Tarrant. “Eles são muito importantes e você se envolve com eles o tempo todo. De modo que você dedica seu tempo organizando as coisas para eles, e também para trabalhar, como chegar aos lugares, ensaiar, dar entrevistas. Não pretendo continuar nessa vida por muito tempo.”

“Existem todas essas variáveis. Sou pai metade do tempo. A mãe deles fica com eles uma parte do dia e eu com a outra metade. Fico espantado de ter trabalhado nestes três filmes. Fiz filmes para a HBO e eles têm sempre projetos interessantes, bons roteiros e filmam em geral muito rápido.Portanto, sim, claro, posso imaginar isso. Vai acontecer uma vez ou outra”, concluiu.

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