Fernando Alvarado/EFE
Fernando Alvarado/EFE

Agora cineasta, Daniel Brühl revê na tela a queda do muro da vaidade

Revelado no clássico ‘Adeus, Lenin!’, o ator retoma o tema da unificação alemã, desta vez como diretor de ‘A Porta ao Lado’

Rodrigo Fonseca, Especial para o Estadão

19 de novembro de 2021 | 05h00

Ao avaliar a atual situação criativa e financeira da indústria de cinema da Alemanha, em meio à estreia europeia de A Porta ao Lado (Nebenan), seu primeiro filme como realizador, Daniel Brühl – o Barão Zemo dos filmes e séries da Marvel – convida o Estadão a fazer um salto no tempo, indo com ele até as filmagens de Adeus, Lenin!, o longa-metragem que o apresentou ao planisfério cinéfilo, em 2003. 

Há 18 anos, uma bilheteria internacional estimada em cerca de US$ 79 milhões fez daquela comédia inspirada na reunificação alemã, com a queda do Muro de Berlim (mesmo tema de seu longa de estreia como cineasta), um bem-sucedido fenômeno comercial. 

“Se Adeus, Lenin! estreasse agora, nesta época em que estou lançando A Porta ao Lado, com covid-19 e com o redesenho do mercado por conta do streaming, sua receita seria menor. Mas, na época, ele representou uma realidade que está em transformação, não apenas na Alemanha”, disse Brühl ao Estadão, via Zoom, durante a última projeção de A Porta ao Lado na Mostra Internacional de São Paulo, em novembro. 

“No início dos anos 2000, vários filmes ligados a questões comportamentais reafirmaram a força do chamado cinema de arte”, afirmou o ator. “Para os alemães, aquela foi uma era marcada por narrativas de experimentação, pois era o primeiro momento em que a gente, enfim, tinha chance de olhar para o que se passou em nossa história, depois de décadas divididos.” 

Do novo longa, ele comenta ainda: “Esse filme que eu dirigi, e que agora está construindo sua carreira, se reporta a diferenças culturais desse período de divisão”.

Um dos destaques da grade da Disney+, no papel do vilão Zemo na série Falcão e o Soldado Invernal, Daniel César Martín González Brühl nasceu em Barcelona, há 43 anos, mas cresceu em Colônia, no oeste alemão, percebendo, ainda criança, as diferenças regionais entre sua cidade e os demais territórios de uma nação fraturada pela Guerra Fria. 

Até sua adolescência, o ator – cujo pai, o documentarista de origem germânica Hanno Brühl, nasceu em São Paulo – viveu numa pátria dividida, no pós-guerra, entre a República Democrática Alemã (assumida como zona sob controle soviético, socialista) e a República Federal da Alemanha, ligada à porção ocidental, capitalista. 

“Havia um contexto cultural diferente que eu busquei levar para o meu filme a partir de uma investigação de uma certa arrogância de quem frequenta um universo geográfico distinto do seu, sem atentar para as convenções locais”, diz Brühl, referindo-se às atitudes de seu personagem em A Porta ao Lado. O filme, que segue inédito comercialmente no Brasil depois da Mostra, teve sua primeira exibição mundial em março, competindo na Berlinale pelo Urso de Ouro. 

“Durante anos, o único problema que Adeus, Lenin! me trouxe foi o fato de ter me rotulado como uma espécie de herói jovem, inquieto, traduzindo questões geracionais da juventude. Só me apareciam papéis assim. Eu briguei anos para fugir desse rótulo, buscando personagens diferentes, mais alquebrados, como esse que interpreto no meu longa.” 

Dividido entre dirigir e atuar, Brühl estrela A Porta ao Lado no papel de um astro em decadência que tem o seu nome, Daniel, e tem também, como ele, a descendência espanhola. Na trama, esse vaidoso aspirante a Javier Bardem está disputando a chance de protagonizar um filme de super-herói nos Estados Unidos. 

Mais conhecido por sua participação em um seriado de quinta da TV alemã, ele vê o aceno de Hollywood como uma mudança radical, capaz de lhe garantir a fama tão esperada. Mas, em meio à negociação com os estúdios, ele para em um bar, para uma cerveja. Chega falando alto ao celular, mal cumprimenta a atendente ou a freguesia, não respeita o clima do local. 

Só que um dos clientes, Bruno (Peter Kurth), indiferente ao fato de Daniel se achar uma celebridade, resolve abordá-lo, ironicamente, num questionamento a respeito de arte, da vida e, mais que tudo, sobre a gentrificação das metrópoles do Velho Mundo. Aí, uma guerra retórica – hilária para a plateia – se instaura. 

“O que vemos ali são dois homens fraturados pelo peso da História: um carrega a vaidade de quem se vê mais forte no exterior; o outro defende os valores locais. É um filme sobre noções de respeito ao espaço, ao outro...”, conta Brühl, que acaba de protagonizar uma nova versão para as telas do romance Nada de Novo no Front (1929), de Erich Maria Remarque (1898-1970). 

“Depois de dirigir, eu sinto que é preciso ser mais humilde. Eu entrei no set, como diretor, sabendo o que um ator sente. Agora sei da pressão que existe sobre um cineasta”, afirma. “Trabalhei com muitos diretores, inclusive José Padilha (em Sete Dias em Entebbe), um cineasta de muita precisão, que nos oferecia muita liberdade para criar. Dirigir é um ofício em que é preciso saber responder a muitas perguntas.” 

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