EFE/EPA/IAN LANGSDON
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Agora adiado, Festival de Cannes nasceu sob o signo da turbulência

Criado em 1939, evento viu sua primeira edição cancelada por conta da Segunda Guerra; o Maio de 68 também influenciou naquele ano

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

19 de março de 2020 | 19h54

Já estava tudo encaminhado para a grande festa do dia 12 de maio. Cannes já havia anunciado o presidente do júri, Spike Lee, preparava atrações grandiosas. Nas últimas semanas, com eventos globais sendo descontinuados – eufemismo para cancelados –, era só uma questão de tempo até o festival ter de encarar seu deadline.

Segundo importantes publicações internacionais, Cannes chegou a ponto de tentar segurar o festival e seus convidados, inclusive os milhares de jornalistas e técnicos que participam do mercado. Finalmente, com a França fechando suas fronteiras, a organização rendeu-se. O festival não mais ocorrerá entre 12 e 23 de maio, como programado. Outras datas estão sendo repensadas, entre o fim de junho e início de julho.

“Neste momento de crise de saúde global, nossos pensamentos vão para as vítimas da Covid-19. Expressamos nossa solidariedade com todos aqueles que estão lutando contra a doença”, destaca o comunicado divulgado na tarde desta quinta, 19, em Paris. “Assim que o desenvolvimento da situação sanitária francesa e internacional nos permitir avaliar a possibilidade real, tornaremos pública a nossa decisão, de acordo com nossa consulta contínua ao governo francês e à prefeitura de Cannes, bem como com os membros do Conselho do festival, profissionais da indústria cinematográfica e todos os parceiros."

Em todo o mundo, as projeções são mais pessimistas e, no Brasil, as autoridades de saúde falam numa turbulência de pelo menos cinco meses. No caso específico de Cannes, não será a primeira vez que o festival sofre transtornos.

Cannes, na realidade, já nasceu sob o signo da turbulência. Logo após a Exposição Universal de Paris, em 1937, foi formada a Academia do Filme, com a missão de formar um grande festival de cinema, inclusive para fazer frente à Mostra D'Arte Cinematografica de Veneza, que os fascistas já exploravam como propaganda.

A data de 20 de setembro de 1939 foi marcada, e seria o dia seguinte ao encerramento de Veneza naquele ano. O Estado francês entrou com o orçamento de 400 mil francos, o Conselho Geral dos Alpes Marítimos, escolhida a cidade de Cannes, entrou com mais 1,4 milhão. Uma seleção de filmes foi organizada e o próprio Louis Lumière aceitou ser o presidente de honra do evento, mas em 1.º de setembro a declaração de guerra alterou todos os planos e a Festa do Cinema, como era chamada, foi cancelada.

No dia seguinte à libertação de Paris, e da França, o projeto foi relançado e aceito pelo governo de De Gaulle, de 1945, que marcou nova data – 20 de setembro de 1946.

Ficou definido que o festival seria anual, mas em 1948 e 49 de novo ele foi adiado por razões econômicas. Em 1968, nova interrupção, quando autores como François Truffaut, Louis Malle e Roman Polanski paralisaram o festival em apoio aos estudantes em Paris, no célebre Maio de 1968. O mais curioso – justamente neste ano em que o festival transfere sua data, ainda não se sabe para quando, a seleção do primeiro festival ganhou exibição especial na França, com votação pela internet que não terminou.

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