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‘Adováveis Mulheres’ estreia na abertura do Festival do Rio

Mostra supera dificuldades e começa com o longa de Greta Gerwig

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2019 | 22h41
Atualizado 09 de dezembro de 2019 | 16h11

Nos últimos três anos, a situação vinha sendo cada vez mais crítica para o Festival do Rio, que foi perdendo patrocínios. Da Prefeitura do Rio, do BNDES, da Petrobrás. A situação chegou ao limite neste ano e o festival perdeu a data, em outubro. Sem recursos, o jeito foi apelar para um crowdfunding, que não cobriu o custo integral – mesmo diminuído bastante –, mas que teve o mérito de abrir para o conjunto da sociedade o debate sobre a necessidade do evento. “O Rio tem sido tão maltratado que precisa desse abraço”, define a diretora artística Ilda Santiago, do colegiado que organiza o festival.

A mobilização atraiu parceiros – nenhum investindo tanto para ser colocado como patrocinador master. Mas sem o Sesc Rio, a Ferjan, a Globo Filmes e o pool de empresas produtoras e distribuidoras que aderiram ao chamado não estaríamos chegando a esta segunda, 9.

Com dois meses de atraso, o Festival do Rio, talvez menor, mas como muito orgulho, estende o tapete vermelho e inicia mais uma edição. O filme de abertura é Adovárveis Mulheres, baseado no livro famoso de Louisa May AlcottMulherzinhas. É a quarta versão da história que já foi filmada por George Cukor, Mervyn LeRoy e Gillian Armstrong nos anos 1930, 40 e 90. Pela segunda vez, cabe a outra mulher, a atriz e diretora Greta Gerwig, recontar a história das quatro filhas de uma dama sulista que tem de assumir o encargo de manter a família unida, enquanto o marido combate na Guerra Civil.

Diretores e elencos de prestígio, incluindo, em diferentes épocas, Katharine Hepburn e Elizabeth Taylor, já fizeram chorar as plateias de todo o mundo, mas, agora, a expectativa é maior porque Greta retoma o livro numa fase de empoderamento das mulheres. Não pode haver recuo. O filme, como o romance, pode se chamar Little Women, mas é preciso reconsiderar o conceito das ‘mulherzinhas’.

O próprio festival, com todas as dificuldades, foi obrigado a fazer escolhas e a sacrificar muita coisa. Sua grande vitrine sempre foi a Première Brasil, considerada a grande janela de exibição do cinema brasileiro. Houve antes a Mostra de São Paulo e o Festival de Brasília, que também remanejou suas datas. Seria injusto (leia entrevista) manter a exigência do ineditismo quando havia dúvida de que o festival pudesse sair. Mas a Première Brasil de 2019 será a maior de todas, em número de filmes. Terá até uma nova seção – Retratos Musicais, que começa já nesta terça, 10, com o documentário de Lula Buarque de Hollanda sobre Gilberto Gil, em presença do próprio. Também nesta terça, começa a mostra competitiva da Première Brasil, com os filmes que vão concorrer ao troféu Redentor. O filme de abertura passa fora de concurso, mas Piedade, de Cláudio Assis, terá o brilho incomparável da presença de Fernanda Montenegro para tornar memorável essa sessão de abertura.

Fernanda sempre foi uma unanimidade nacional, mas os recentes ataques do secretário de Cultura, Roberto Alvim, fizeram com que, mais que nunca, a classe artística, que vem sendo criminalizada, cerrasse fileiras em torno dela. Não é preciso bola de cristal para antecipar uma abertura de Première Brasil com duras críticas ao Governo Federal (e do Rio). Além da extensa produção brasileira, o festival, por medida de economia, abre mão de retrospectivas e homenagens, e reduz consideravelmente o número de convidados internacionais, a maioria bancados por apoiadores (consulados e distribuidoras), mas deve apresentar mais de 100 filmes internacionais. Dessa maneira, mantém-se fiel ao conceito – de abrir janelas para o Brasil e o mundo, trazendo o que de mais importante ilumina a galáxia cinema em todo o mundo. Está mantido o Rio Market, até porque, em momentos de crise, como o atual, é necessário abrir frentes para viabilizar a produção que, como reflete Ilda, o governo está fazendo de tudo para paralisar.

O festival diminui um pouco o circuito de salas regulares, mas agrega o sistema S – salas do Sesc – e promete prosseguir em janeiro, bem depois do seu encerramento oficial, no dia 19. As 15 salas devem exibir os novos filmes de Ken Loach, Terence Malick, Lav Diaz, Clint Eastwood, Sergei Loznitsa, Jim Jarmusch, Pedro Costa, Alain Cavalier e um grande etc. Entre os destaques, estão O Escândalo, de Jay Roach, com Charlize Theron e Nicole Kidman, sobre as denúncias de abuso contra o poderoso Roger Ailes, da Fox News, e o vencedor de Toronto, Jojo Rabitt, de Taika Waititi, sobre garotinho cujo amigo imaginário é... Adolf Hitler.

 

“Sempre foi desafio, mas este ano virou ato de resistência”, diz Ilda Santiago, organizadora

Foram momentos de ansiedade, estresse, até terror, mas Ilda Santiago comemora – vai conseguir colocar o bloco do Festival do Rio na Rua.

Dá para respirar aliviada?

O alívio vem só quando o festival acaba, mas este ano, mais que nunca, o começo já é uma vitória. Temos de agradecer ao público, que se mobilizou, aos amigos distribuidores e exibidores, aos consulados e ao Sesc, à Ferjan e à Globo. Levantar um festival dessa magnitude é sempre um desafio, mas este ano foi um ato de resistência pelo Rio, que precisa desse carinho.

A Première Brasil segue sendo a menina dos olhos, mas abre mão do ineditismo. Por que?

Já exibimos filmes que não eram inéditos, mas este ano, em especial, seria injusto, porque houve um momento em que nem sabíamos se o festival ia sair. Houve a Mostra de São Paulo, o Festival de Brasília e o cinema brasileiro precisa desses espaços. Vamos apresentar cerca de 90 produções e coproduções, curtas e longas. Vamos ter até uma nova mostra, Retratos Musicais. Será uma grande celebração e o esforço, agora, é para recuperar a data, outubro, no ano que vem.

 

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