Adolescentes chegam ao crime em "Bully"

Há momentos de Bully que parecemsugerir que esse filme e o posterior Ken Parker são parte damesma coisa para o diretor Larry Clark. Aqueles planos de casasde classe média, carros na garagem, ruas arborizadas, jardinsbem cuidados fazem parte de um sonho americano que o cinemacultivava, até os anos 1950, e que nos 60 desmoronou, com asmudanças de comportamento que anunciaram, para o melhor e o pior, os novos tempos. Permanece uma aparência de sociedade estável,bem constituída, mas é só uma aparência. Logo na primeira cena, Clark parece querer confirmar oque dizem dele os críticos: é um gigolô de adolescentes. Ele põeum garoto ao telefone. É o protagonista da história: diz aquelascoisas sórdidas de quem está praticando sexo ao telefone e maistarde, quase distraidamente, num diálogo fortuito, o espectadorsabe que ele ganha dinheiro dessa maneira. Há esse rapaz que não sabe direito o que quer da vida.Ou, melhor, sabe que quer prazer. E há o amigo com quem eleestabelece uma relação de dependência. O outro o oprime, usa eabusa do herói e não apenas dele. A namorada, a amiga danamorada, o garoto gordo são todos hostilizados por esseadolescente rico e mimado, para quem o pai já desenhou umfuturo. Cansado de humilhações, o protagonista chora no ombro danamorada e surge a idéia - que tal matar esse sujeito que todosdetestam? A história do novo filme de Larry Clark é a passagemda teoria à prática, do desejo de matar à realização do crime. Nos filmes anteriores - Kids e Kids e osProfissionais -, o diretor queria só mostrar as safadezas deadolescentes, os gestos e palavras obscenos, a obsessão pelosexo. Podia-se entender e, eventualmente, apoiar esses filmescomo reações a um tipo de comédia hollywoodiana fundada na mesmaobsessão, mas que a disfarça por meio de uma linguagem palatávelpara o público mais conservador. Clark escancara(va) e isso é(era) interessante. Mas agora ele chegou ao crime, filmado comrequintes de perversidade. Seus adolescentes perderam definitivamente a inocência.E o diretor também deixou cair a máscara da face. É mesmo um gigolô desses garotos e garotas.

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