Pandora Filmes
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‘Adeus à Noite’ traz Catherine Deneuve como avó de garoto que abraça a causa da Jihad na França

Filme que estreia nesta quinta-feira, 12, volta-se para um tema visceral - a radicalização política e religiosa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2019 | 16h09

Em sua oitava parceria com a estrela Catherine Deneuve, André Techiné volta-se para um tema visceral - a radicalização política e religiosa que está no centro dos talvez maiores cataclismos atuais. Pela primeira vez no universo do autor, Catherine interpreta uma avó. Muriel ainda é uma bela mulher, como a própria Catherine, aos 75 anos. Possui uma fazenda de criação de cavalos, uma escola de equitação. Tudo nos conformes, e aí chega o neto, que vem se despedir. Diz que está indo para o Canadá, mas Marion o surpreende fazendo suas orações. Descobre que ele se converteu ao islamismo e, na verdade, está partindo para a Síria, para se integrar à Jihad muçulmana.

L'Adieu a La Nuit, 'Adeus à Noite', título do filme, dialoga muito bem com Meu Filho Querido, do tunisiano Mohamed Ben Attia, um dos mais belos filmes lançados este ano no País. O Ben Attia era sobre um pai desesperado que se seguia a trilha do filho na Síria, depois que o garoto partia, sem sequer dizer adeus. Se pudesse, ou se soubesse dos planos do jovem, ele muito provavelmente faria o mesmo que Muriel - teria, a qualquer custo, tentado impedi-lo de partir. Para complicar, no Techiné, o neto se apropria de dinheiro da avó, para entregá-lo ao grupo que financia os jihadistas e, com isso, a narrativa ganha uma dimensão de thriller.

Deneuve, na coletiva do filme, em fevereiro, em Berlim - L'Adieu a La Nuit concorreu ao Urso de Ouro -, disse que não via nada demais, em sua idade, em interpretar uma avó. Como atriz, os anos de Bela da Tarde ficaram para trás. Encarar o tempo não é uma dificuldade - difícil é expressar o sentimento dessa avó. “É um dilema hamletiano que ela vive. Ao impedir o neto de partir, ela pode achar que está agindo certo, mas o está impedindo de viver a vida dele, de ser ou não ser o que quer.” E Techiné: “Este filme nasceu de um mal-estar profundo. Nasci numa pequena cidade do sul da França, numa família de ascendência espanhola. Era como se a gente vivesse num feudo, isolado. Foi o cinema que me fez descobrir o mundo, e a cidadania, primeiro como crítico, depois como diretor. Sempre gostei desses personagens que não se integram e carecem de pertencimento, porque eu próprio muitas vezes me senti assim.”

Intelectual de formação católica e marxista, ele naturalmente se interessou pelas questões dos refugiados e imigrantes, dos povos do Magreb na França. “Como todo mundo da minha geração, sofri com todos esses ataques da Jihad, que colocam à prova noções de humanidade e tolerância. Tentava me informar, manter atualizado. O filme nasceu da convergência de vários fatores. Havia esse desejo de entendimento, mas creio que fundamental foi o livro de David Thopmson, Os Jihadistas Franceses, feito de entrevistas com jovens franceses que aderiram à causa islâmica e à Jihad. São diálogos muito crus, muito diretos, que ficaram comigo. Comecei a pensar se seria capaz de criar uma mise-en-scène para eles, se seria possível transformar esse material de reportagem em ficção cinematográfica. E foi assim que o filme começou a nascer.”

Embora a palavra dos jovens tenha lhe fornecido o impulso inicial, Techiné conta que seu ponto de vista é o geração mais velha. “O filme expressa o choque de gerações, mas sentia que só conseguiria ser honesto adotando o olhar de uma pessoa da minha geração, e foi assim que foi se delineando a personagem de Muriel. Antes mesmo de contatar Deneuve, sabia que teria de tê-la nesse projeto.

Conheço Catherine há muito tempo e conheço sua inquietação. Nisso somos iguais - gostamos de arriscar, de nos renovar, de sair da zona de conforto. Esse é um tema arriscado, mas sabia que poderia contar com ela, se a personagem fosse bem desenhada.” E Techiné disse mais: “Foi, de nossa já longa colaboração, o filme em que mais exigi dela. Espero que não tenha sofrido muito (Deneuve retrucou que não foi nada que não pudesse aguentar). Na convivência, a gente desenvolve uma cumplicidade, um já sabe o que o outro quer, ou pode dar. Muriel é muito forte no seu lado profissional, mas é vulnerável no afetivo, em relação a esse neto que desconhece. Queria colocar essa ambiguidade na telas, e sem carregar na boa consciência da nossa geração. Esse filme não é para dizer como somos melhores.”

 

Cenário: Jovens em busca de um propósito

O recrutamento de europeus é um fenômeno recente e não há uma única resposta para o que leva um adolescente a se radicalizar. Para o sociólogo iraniano Farhad Khosrokhavar, muitas vezes a religião é apenas o gatilho. O jihadismo seria, segundo ele, resultado da falta de saída política em sociedades cada vez mais desiguais, o canalizador de “injustiças sociais”, um papel que antes cabia a grupos como Brigadas Vermelhas e Baader-Meinhoff. 

A antropóloga Dounia Bouzar, que ajuda famílias com filhos radicalizados, também diz que a religião não é a causa, “mas o meio usado pelos recrutadores” - ela calcula que 40% das famílias envolvidas sequer são muçulmanas. Isto porque o recrutamento não é feito apenas nas mesquitas, mas também online. O alvo são jovens suburbanos em busca de um propósito. Muitos não falam árabe nem conhecem o Alcorão. O belga Salah Abdeslam, responsável pela logística dos ataques de novembro de 2015, em Paris, frequentava bares gays, bebia e usava drogas - o que é proscrito pelo Islã. 

Há ainda casos de jovens que buscam no recrutamento promoção social, um emprego remunerado ou simplesmente encontrar meninas para superar algum trauma afetivo. Segundo especialistas, os recrutadores sabem disso e usam mulheres para atrair o bando. A frustração, porém, também pode ter relação com um complexo de virilidade, que facilita o recrutamento. O sociólogo Raphaël Liogier costuma dizer que as academias de musculação abrigam mais jihadistas do que as mesquitas.  Neste caso, o EI estaria alistando criminosos prontos para matar, independentemente da religião. ( por Cristiano Dias)

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