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'Adeus à Linguagem' é um objeto cinematográfico não identificado

Filme tem desfecho que talvez anteveja algum tipo de esperança

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

01 de agosto de 2015 | 03h00

Adeus à Linguagem é não apenas um filme sobre a crise, ou sobre as crises. É, em si mesmo, um “filme-crise”. Isto é, questiona não somente as coisas do mundo, mas, e sobretudo, a si mesmo. 

Crise do casal, da relação com a natureza, da sociedade, da linguagem, crise do cinema. Há que entrar nesse turbilhão de imagens, sons, referências, frases e citações de outros filmes para se fazer ideia da profundidade da relação de Godard com todos esses temas. E da maneira como eles adquirem nova faceta, novos pontos de iluminação pela sua arte e da desconstrução que ela propõe.

Sim, há o 3D, o primeiro filme de Jean-Luc Godard a utilizar essa técnica que tem sido vista como uma espécie de salvação da lavoura pelos grandes estúdios. E por quê? Porque, assediados pela pirataria, que sempre encontra maneira de se reinventar, os estúdios procuram fazer do cinema um espetáculo inimitável nas salas comerciais. Por melhor que seja o seu home theater, ele não consegue competir com um 3D profissional, ou com uma sala Imax.

Mas então vem um autor radical como Godard e se apropria desse recurso. De que maneira e com que fito? Para, também, corrompê-lo e, de certa forma, usá-lo contra si mesmo, como paródia. Há, de fato, belas imagens produzidas com a técnica. Uma sequência, por exemplo, não poderá ser esquecida neste Adeus à Linguagem - aquela em que Godard se refere aos impressionistas, a Monet, em particular, e nos brinda com uma cena campestre deslumbrante, usando o 3D para reforçar a profundidade de campo. Mas não apenas. Em outros momentos, distorce as imagens, como se os olhos que fixam a tela fossem atingidos de astigmatismo e devessem ser apertados para que a imagem fizesse sentido. 

Acontece que Adeus à Linguagem é um filme não de três, mas de inúmeras dimensões. Temos nele um casal, Joselle (Héloïse Godet) e Gédéon (Kamel Badelli), com seus encontros e desencontros. Junta-se um terceiro elemento, cuja presença cresce com o tempo, um cão chamado Roxy. Um animal, junção do filme à natureza. Em certo momento, se fala do cão como aquele único ser capaz de amar o outro mais que a si mesmo. Em qualquer contexto, a frase poderia parecer piegas. Mas, atenção, Godard faz filmes para cinéfilos, não exatamente para cinófilos.

Se o cão está lá é por um motivo. E qual seria? Godard se pergunta precisamente pelo limite da linguagem, ou seja, até que ponto as palavras são suficientes para dar forma à experiência do mundo. De que tipo de experiência? Sem dúvida, da experiência do amor, e por isso a presença do casal, nu em boa parte do tempo, ou empenhado no ato amoroso. Mas é também da experiência do horror que se fala. Da história do século 20 e desta parte do século 21 em que já vivemos. Daí que, entremeadas a imagens amorosas, apareçam outras evocando a guerra, os morticínios, o massacre. 

No contraplano do casal, desfila a História. E, a História, para Godard, é o que era para Joyce - um pesadelo do qual desejava despertar. Mas não se desperta do pesadelo da História. Vive-se nele. Nas guerras, nos genocídios, nas perseguições, na intolerância, na corrida de ratos do capitalismo triunfante. Tudo isso que passou do século 20 ao 21, sem qualquer atenuante. Para Godard, cineasta político, o mundo é esse desarranjo incansável, herdado das cinzas da 2.ª Guerra, mas que não se ameniza nas vãs promessas de paz e estabilidade. De modo que, em seu cinema recente, comparecem Sarajevo (Nossa Música) ou a falência da União Europeia (Filme Socialismo). 

Adeus à Linguagem é o mais radical de todos eles, uma espécie de filme testamento acabrunhante e, ao mesmo tempo, inesquecível em sua beleza misteriosa. Com um desfecho que talvez anteveja algum tipo de renascimento ou esperança secreta. Porque, de fato, é próprio do homem ir ao fundo do abismo, ao limite da linguagem, e, misteriosamente, renascer. Apesar de tudo. Adeus à Linguagem apresenta-se como limite humano e desta forma de arte e conhecimento a que chamamos cinema. Poderíamos falar dele indefinidamente, sem esgotá-lo, porque é, no fundo, inapreensível. Um objeto cinematográfico não identificado, pronto a abduzir espectadores. 

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