Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Godard abusa do 3D em 'Adeus à Linguagem', sua estreia no formato

Diretor francês sobrepõe imagens em níveis diferentes

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

01 de agosto de 2015 | 03h00

Heloïse Godet e Kamel Abdeli representam boa parte do tempo nus no novo longa de Jean-Luc Godard, que estreou na quinta, 30. Adeus à Linguagem marca a segunda experiência do autor com a terceira dimensão, após o episódio de 3x3D. “Nunca foi um problema (representar nu)”, diz Abdeli. Inclusive nem me lembro de isso haver sido mencionado quando fiz a entrevista para o papel”, ele conta. Heloïse acrescenta - “Representávamos olhando nos olhos. Confesso que nunca tive curiosidade de olhar para baixo” (e ela ri). “Havia muito mais sensualidade na minha relação com Jean-Luc. Embora estivéssemos separados pela câmera, ele ficava muito próximo e me indicava os gestos e olhares precisos que queria que eu fizesse. ‘Mais, mais, menos.’ Quem nos visse de longe podia pensar que havia um clima, mas não. Estou bem feliz no meu casamento.” E Abdeli - “Eu que o diga. Por mim, já teria havido alguma coisa entre nós.” E ambos riem.

Abdeli e Heloïse estiveram na semana passada na cidade para falar de Adeus à Linguagem. “Além de ser um filme belíssimo, que eu me orgulho muito de ter feito, Adeus à Linguagem tem me levado numa verdadeira volta ao mundo. Em princípio, não parece o tipo de filme que os norte-americanos iam adotar, mas a crítica dos EUA foi consagradora. Adeus à Linguagem foi o melhor filme do ano passado para eles”, ela diz. E como se chega ao círculo de Godard, para filmar com ele? “Fui chamado para um teste que, na verdade, foi uma entrevista de 20 minutos com seu assistente. Filosofia e física são dois assuntos que me interessam muito. Conversamos sobre ambos, e ele me perguntou muito sobre minhas atividades cotidianas. Sobre o filme, propriamente dito, não falamos nada”, lembra Abdeli. E Heloïse - “Comigo ocorreu a mesma coisa. Foram 20 minutos de conversa, assuntos variados. O máximo que falei foi sobre meus Godards favoritos.”

E quais são? “Tive um impacto muito forte vendo O Desprezo, mas tenho a impressão que só adentrei no ‘meu’ Godard a partir de Weekend à Francesa.” E Abdeli? “O meu Godard do coração nem é um Godard de verdade. É Acossado, que nasceu de uma ideia de (François) Truffaut.” E Adeus à Linguagem? “Tenho acompanhado a apresentação do filme para diferentes plateias e, mais que as reações dos outros, me encanta o fato de que o filme está sempre se revelando para mim. São tantos detalhes, possibilidades. Godard é muito detalhista no que se refere a gestos, olhares, inflexões de voz. Se ele marca uma posição que você tem de ocupar no set, tem de ser aquela, exatamente aquela. Mas ele não fala sobre o sentido geral do filme. E muda muito. Reescreve o diálogo no set, ouve o que a gente diz, mesmo que, eventualmente, não lhe sirva para muita coisa. Fazer o filme foi enriquecedor, mas vê-lo muitas vezes foi melhor ainda”, conta Heloïse.

E Abdeli - “Para mim, é um filme em três movimentos, feito de metáforas. A arte, a guerra, o mundo animal. E cada uma delas tem seus leques. A arte permite falar de vida. A guerra, do complexo econômico-militar. E o mundo animal, da natureza.” O repórter brinca - todo mundo sempre diz que atores devem evitar contracenar com crianças e animais, que roubam a cena. No caso de Adeus à Linguagem, o cachorro, que é de Godard (e sua mulher, Anne-Marie Miéville), ganhou a Palme Dog no Festival de Cannes de 2014. “Mas nunca estivemos no mesmo plano que ele. Godard fez todas as suas cenas à parte e as inseriu na montagem. E apesar de ele ter ganho a Palme Dog e nós, nada, fiquei muito contente que Adeus à Linguagem tenha recebido ex aequo o prêmio do júri em Cannes com Mommy (de Xavier Dolan). O mais velho e o mais jovem autor da competição do ano passado dividindo prêmio. Achei muito bonito, principalmente muito sensível por parte do júri”, reflete Abdeli.

A questão técnica, o 3D, não interferiu no jogo dos atores. “Era uma questão de Jean-Luc com o fotógrafo. Uma ou outra vez tivemos de refazer a cena, ou ensaiar alguma outra coisa, mas nunca a ponto de quebrar o intimismo”, ela lembra. E o adeus à linguagem? O filme representa o adeus de Godard a alguma coisa? “É curioso que todo mundo nos pergunte isso, mas eu senti o filme de outra forma e entrei nele diferente. Não é ‘adeus’ mas ‘a Deus’” (e Abdeli aponta para cima) a linguagem.”

Três razões para gostar da obra do diretor

1. Ele estreou com um filme renovador do gênero policial. Acossado traz o romance entre o marginal vivido por Jean-Paul Belmondo e a garota interpretada por Jean Seberg. A obra teve influência mundial, inclusive sobre o cinema brasileiro. Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla, dialoga com ele. 

2. Não há para ele gêneros menores. Ninguém havia feito uma ficção científica tão criativa quanto Alphaville. Para driblar a falta de recursos, o computador que a tudo dirige é feito com um velho ventilador de pás. 

3. De todos os seus colegas de Nouvelle Vague, é o mais inventivo. Quando todos se acomodaram, ele prosseguiu testando os limites da linguagem cinematográfica. É um pensador do cinema. Um diretor ensaísta.

 

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