Adaptação (torta) de 'Madame Bovary' desconcerta e encanta o público

Adaptação (torta) de 'Madame Bovary' desconcerta e encanta o público

Fascinada pelas relações complicadas, diretora Anne Fontaine se inspira em Flaubert no seu 'Gemma Bovery'; veja o trailer

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2015 | 05h00

Anne Fontaine fala um português impecável –, mas com sotaque de Portugal. “Foi assim que aprendi a falar a língua, com minha babá portuguesa”, explica. Anne esteve no Brasil como convidada do Festival Varilux. Veio mostrar Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte, sua bela adaptação (torta) de Madame Bovary, de Gustave Flaubert. “Não ousaria adaptar o livro, como o fizeram Vincente Minnelli e Claude Chabrol. A melhor versão, para mim, é a de Manoel Oliveira, Vale Abraão.” O romance é icônico. “Me sentiria paralisada.” Sua Madame Bovary começou a tomar forma quando ela descobriu o livro da inglesa Posy Simmonds.

Cartunista inglesa, Posy tornou-se conhecida no jornal The Guardian. Fez ilustrações para livros infantis e criou os próprios romances gráficos. Gemma Bovery e Tamara Drewe seduziram o público e os críticos por suas heroínas que remetem à tradição gótica, mas revista e atualizada. O estilo de Posy com frequência é definido como ‘irônico’. Casa-se com o da diretora. Desde Nettoyage à Sec/Lavagem a Seco, o cinéfilo acostumou-se às peculiaridades do amor, segundo Anne Fontaine. Ela ama personagens obsessivos, em relações complicadas. Nettoyage já definia o tom. Um casal bem casado cuja vida ia para o ralo quando ambos se apaixonavam pelo novo funcionário da lavanderia. Poderia ser uma tragédia. Não era.

Em Gemma Bovery, Fabrice Luchini é obcecado por Madame Bovary. Leitor ávido de Flaubert, sabe tudo sobre a insatisfação de Emma, protagonista do livro. Cansado de Paris, Luchini muda-se para uma cidade do interior. E é aí que descobre a sua Emma, que se chama Gemma. Inglesa, ela vive com o marido. E há um amante. Numa cena muito interessante, Luchini fala a Gemma sobre Emma. Tenta explicar de que forma ambas são próximas. É uma cena muito bem escrita e filmada, como se espera de um filme de Anne Fontaine.

A própria Anne explica seus personagens, nesse filme e nos outros – Coco Antes de Chanel é outro exemplo. “Eles levam o que parece uma vida ajustada, mas não são felizes. Querem algo mais, que nem sabem direito o que é. O destino lhes proporciona encontros que são desestabilizadores. Gosto dessa ideia de que não conseguimos controlar nossas vidas e de que as coisas acontecem, apesar de. É a obsessão em meus filmes. A busca por algo que não está ao alcance traz consequências.”

Para a diretora, Gemma Bovery é uma comédia. “Foi o que me atraiu em Posy (Simmonds). Trabalhando diretamente sobre Flaubert, não me sentiria à vontade com esse ‘aproach’. Com mais liberdade, pude me concentrar no essencial. Gemma é Emma e, no fundo, Flaubert é o que me interessa.” Mas ao contrário de Flaubert, que dizia “Madame Bovary sou eu”, Anne se projeta no personagem de Luchini. “Adoto o olhar dele. Embora feliz, ele possui uma imaginação muito forte que o descola da realidade. Tive muito prazer em encenar seus sonhos, interferindo neles. Martin/Luchini age como um diretor de cinema, se a vida de Gemma fosse um filme. E não é?”, ela pergunta com seu delicioso sotaque português.

Embora não seja uma diretora de blockbusters – como Que Mal Eu Fiz a Deus?, a comédia de Philippew de Chauveron que também estreou quinta-feira, 6 (e estava no Festival Varilux); Que Mal...? fez estratosféricos 20 milhões de espectadores somente na França –, Anne considera-se muito satisfeita com sua carreira, e seu público. “Tenho o que se chama de público fiel. Nenhum filme meu foi o que se possa chamar de fracasso. Na França, faço uma média de 400/500 mil espectadores, o que é muito bom para o tamanho de meus filmes. E esse público se mantém além fronteiras. Faço bons números nos Estados Unidos, no Japão.”

Por conta disso, ela é sempre convidada para lectures e master classes em universidades norte-americanas. “Encanta-me ver como muitos jovens se desconcertam com meus filmes. Os amores tortos os tiram dos eixos. Digo sempre o que já falamos. Não controlamos nosso destino, nossos amores. E, quando a vida vem, se vamos, nunca sabemos direito aonde os sentimentos vão nos levar.” Anne só tem elogios para Fabrice Luchini. “Brinco que ele é um ator feminino. Fabrice possui refinamento, malícia. É um ator que se esgrime muito bem com as palavras.” E Gemma Arterton?

Ela confessa que resistiu quanto pôde a contratar Gemma Arterton, e por um motivo muito simples. Além de fazer a princesa de O Príncipe da Pérsia – Areias do Tempo, Gemma foi a protagonista de outra adaptação de Posy Simmonds, Tamara Drewe, por Stephen Frears. “Me parecia muito óbvio recorrer à mesma atriz, e eu logo desisti. Comecei a pesquisar atrizes inglesas. Fiz entrevistas. Nenhuma se ajustava ao que queria, mas eu estava irredutível. Não queria Gemma. E um dia saí para almoçar com minha amiga Isabelle Huppert. De repente, ela me contou de sua experiência no Festival de Marrakech e de como mulheres e homens pareciam magnetizados por Gemma, sem conseguir desgrudar o olho dela. Contei-lhe do meu impasse, e Isabelle achou tolice. Se Gemma seria perfeita, por que não voltar a ela? Foi o que fiz, e não me arrependo”, acrescenta.

 

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