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Adam Driver vive seus melhores dias no cinema

Ator fala de interpretações marcantes, como em cenas de 'História de Um Casamento'

Kyle Buchanan, THE NEW YORK TIMES

08 de janeiro de 2020 | 06h00

Adam Driver tem um rosto enigmático, como de uma esfinge. Não digo isso por causa das suas características inusitadas, embora seu nariz comprido e suas verrugas e sardas certamente tenham dado a Driver um semblante fora do comum. É mais pelo fato de ele ser uma pessoa tão firme que, quando alguma emoção consegue escapar - através de um brilho nos olhos ou a imprevisível ondulação de sua voz -, essa transgressão pega você de surpresa.

O que é verdade, não importa quantas vezes você o veja, e em 2019 você deve tê-lo visto muitas vezes. No segundo trimestre do ano, Driver será visto simultaneamente em Burn This, na Broadway, e em Os Mortos Não Morrem, um filme de zumbi de Jim Jarmusch. E três outros filmes foram lançados nos últimos dois meses: The Report, em que ele interpreta um funcionário do Senado que investiga o uso de tortura pelo governo, Star Wars: A Ascensão Skywalker, sua terceira e última aparição como o atormentado Kylo Ren, e História de Um Casamento, em que interpreta um diretor de teatro numa disputa pela custódia do filho com sua ex-mulher.

Foi durante um clipe desse último filme que eu vi Adam Driver se assistindo no Gotham Awards em Nova York, no início de dezembro, quando foi indicado para o prêmio de melhor ator. Assistir ao seu próprio trabalho não é uma de suas atividades favoritas, disse-me ele naquele dia. Ele se desgasta com o que percebe como erros que cometeu, embora saiba que, no fundo, isso ocorre com o trabalho de qualquer pessoa, e são as imperfeições que ele considera sempre mais fascinantes. 

Driver, 36 anos, até agora tem evitado assistir a todas suas aparições na tela, seja em Girls, a série da HBO que deu a ele seu papel de grande sucesso, ou nos filmes em que trabalhou com diretores de prestígio, como Martin Scorsese, Steven Spielberg e Spike Lee. História de Um Casamento entra nessa categoria.

Na entrega dos prêmios Gotham, quando Jennifer Lopez apresentou os indicados para melhor ator, foi exibido um clipe de História de Um Casamento, quando o personagem de Driver finalmente encara seriamente a possibilidade de perder a custódia do filho. “Ele precisa saber que lutei por ele”, diz, cada vez mais agitado. Na minha frente, sentado em uma mesa com seus companheiros do filme, o Driver real assistiu ao clipe e parecia impassível, uma esfinge.

Estava ele contente com o que viu de si mesmo, ou se perguntava por que as escolhas que fez estavam gerando tanta aclamação nessa temporada de prêmios? Bem, não houve tempo para se preocupar com isso. Momentos depois Jennifer anunciou seu nome como o vencedor do prêmio.

Na manhã daquele dia, no Greenwich Hotel, quando a neve começava a cair do lado de fora, Driver degustava um café e refletia sobre os meses de aparições em entregas de prêmios com possibilidades de ser contemplado por História de Um Casamento - ele foi indicado para o Golden Globe e também para o Screen Actors Guild Award e deve ser um dos candidatos ao Oscar quando os nomes forem anunciados em 13 de janeiro. 

No ano passado, ele foi indicado para o Oscar por sua atuação no filme de Spike Lee, Infiltrado na Klan, como o detetive judeu que ajuda o colega negro a se infiltrar na organização. “É muito agradável”, disse ele, referindo-se à indicação ao Oscar. “Não tenho controle disso.” A única maneira que ele conseguiu metabolizar esse tipo de reconhecimento é achar que sua indicação faz parte do esforço de uma equipe. 

Pessoalmente, Adam Driver é aquela figura polida, mas com uma conduta firme do Marine que foi antes de frequentar a Julliard. “Acho que todo mundo, em qualquer profissão, deseja aprovação”, disse ele, embora se perguntando se esse desejo não seria arriscado para atores admitirem, uma vez que têm pouco a esconder. “Não sou separado daquilo que sou. Não tenho um instrumento, não toco violoncelo. Trata-se de você apenas, de um certo modo. O que o torna mais vulnerável.”

Pelo menos, ele estará na premiação ao lado de Baumbach, o diretor que se tornou seu mais frequente e confiável colaborador. Eles vêm trabalhando juntos desde Frances Ha, em 2012, quando Baumbach se apaixonou pela maneira como Driver conseguiu dar vida inesperada às suas frases.

Os dois continuaram a trabalhar em colaboração em Enquanto Somos Jovens e Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe, antes de Driver enviar mensagem para seu diretor perguntando o que ele achava de montar uma versão para o cinema do musical Company, de 1970, de Stephen Sondheim. Baumbach ficou empolgado e, embora não tenham conseguido levar a cabo a adaptação, eles acabaram, entre as muitas coisas que os interessavam, chegando a História de Um Casamento, incluindo uma música de Sondheim que Driver interpreta no filme.

Enquanto Bobby, o protagonista que nunca foi casado em Company, parece ter pouca coisa em comum com o Charlie divorciado, de História de Um Casamento, Driver entendeu que os dois tinham uma forte relutância a se confrontarem consigo mesmos. Quando História de Um Casamento começa, a mulher de Charlie, Nicole (Scarlet Johansson), saiu de casa e voltou, mas leva tempo para Charlie perceber que as coisas nunca voltariam à normalidade e que ele agora sentiria o peso de uma grande perda. “Ele não consegue dar nome a alguma coisa, não consegue expressá-la”, disse Driver. “Somente por meio de uma maneira abstrata ele consegue processar a perda e lamentar.”

Na maior parte da história, assistimos a Charlie e Nicole conversando de uma maneira furtiva, abreviada sobre coisas que realmente os incomodam e acabam confiando nos seus advogados para trocarem os insultos. 

Mas, no final do filme, quando os dois estão sozinhos em seu apartamento e retomam as brigas familiares, a disputa fica cada vez asquerosa até que tudo se rompe. Charlie berra e sua ex-mulher solta coisas terríveis a ponto e ele se ajoelhar diante dela, abalado ao sentir o quão violento ele se tornou. Na cena, Driver chega a tamanho estado de fúria que parece ir além dos limites do filme.

Driver fica feliz em falar sobre como o personagem chega a tal ponto, mas se mostra menos disposto a explicar como deu o máximo de si para chegar a essa situação tão intimista como ator. “Tudo o que consegui está lá na tela. Então, o que adicionaria para tornar aquele momento melhor? Nada.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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