'Across the Universe' é sinfonia contra o cinismo

Diretora Julie Taymor fala da atualidade do filme e conta que quer fazer um musical com Caetano Veloso

Flávia Guerra, de O Estado de S. Paulo,

07 de dezembro de 2006 | 17h04

"Você é brasileira? Ótimo! Diga a Caetano que ainda não desisti do nosso projeto", disse Julie Taymor, diretora de Across the Universe ao Estado logo no início de mais uma daquelas entrevistas prêt-à-porter que hoje recheiam os lançamentos de grandes produções como seu filme, que se tornou unanimidade entre os fãs e os não-fãs dos Beatles. O Caetano era o Veloso. O projeto: levar Orfeu Negro (versão para o cinema da peça Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes, dirigido em 1959 pelo francês Marcel Camus) aos palcos. "A idéia nasceu quando ele gravou Burn it Blue (música tema do filme, composta por Elliot Goldenthal) de Frida (o longa anterior de Julie, com Salma Hayek) para mim. Ele me convidou para ir ao Brasil. Conheci o seu País e me apaixonei. Caetano acabou tocando outros projetos e este nosso está engavetado. Mas juro que eu quero retomá-lo um dia", reforçou a diretora norte-americana, derrubando todos os códigos de conduta que as grandes campanhas de entrevistas hoje em dia seguem e provando que ainda há espaço para conversas despretensiosas e desprovidas de frases de efeito mútuas para impressionar quem está de cada lado do balcão da mídia.  Veja também:Trailer de 'Across the Universe'    Trailer de 'Uma Mulher É Uma Mulher'  Julie acabara de acordar em uma daquelas manhãs gloriosas para qualquer cineasta. Seu musical, que insere 34 canções dos Beatles em 131 minutos de pura nostalgia, era o principal destaque de todos os jornais que cobriam o Festival de Cinema de Roma, onde o longa teve participação triunfal com direito a incontáveis aplausos em cena aberta e muitas lágrimas no final. Afinal, os aplausos eram para Julie, para os atores ou para John, Paul, Ringo e George? "Boa pergunta. Na verdade, acho que são para um estado de espírito que hoje está em falta. O filme, claro, evoca muito o que os Beatles significaram para uma geração, mas fala de um sentimento que ainda hoje é muito atual", responde Julie, que tem motivos de sobra para se vangloriar de uma carreira que inclui estrondos de bilheteria como O Rei Leão, musical da Broadway que ela levou aos palcos e já viajou por dezenas de países, incluindo o Brasil.  Seria este sentimento o tal do mal-estar da civilização diante de um mundo em que cada vez mais nos escondemos atrás de um cinismo e de uma pretensa indiferença a cores vibrantes do ativismo? Seja ele militante ou conceitual? "Exatamente! O mundo está muito cínico e, ao mesmo tempo, medroso e enganado. Para você ter uma idéia, no meu País não são mais mostradas cenas dos caixões dos nossos soldados mortos nos conflitos e ocupações do Oriente Médio. E por quê você acha que isso acontece?" Porque não convém tirar as pessoas de uma zona de conforto ilusória? "Isso mesmo! E as pessoas sentem falta deste questionamento, de uma postura mais ativa diante do que acontece no mundo, que havia nos conturbados, mas maravilhosos anos 60 e 70."  Que fique claro: Across the Universe (óbvia referência à canção e ao poder que o quarteto de Liverpool teve de dizer a jovens de todas as idades o que pairava no ar, mas ninguém sabia dar nome) não é um filme sobre os Beatles. As canções tão pouco são inseridas aleatoriamente na trama. Elas são praticamente parte de cada evolução da história. Sem elas, o sentido se perde. "Por isso, fiz questão que houvesse legendas inclusive nas cenas musicais, pois quem não sabe as canções de cor pode perder parte da história." Mas, cara Julie, seu filme não seria justamente um musical ‘água-com-açúcar’, uma fórmula (eficiente, é fato) pronta para emocionar saudosistas e satisfazer platéias mais jovens e acostumadas a ouvir Oasis?  Antes, vale dizer que o filme conta a saga de Jude (Jim Sturgess), um rapaz inglês em busca de novos horizontes que encontra na América dos efervescentes anos 60 um clima de mudança e renovação que não há mais na sua Europa embolorada. No fim tudo não acaba bem enquanto não termina e Jude descobre que Lucy (Evan Rachel Wood) é tudo que ele precisava. "Você pode fazer esta leitura de que é um filme escapista. Mas não é preciso amargor para ser engajado. Por exemplo, nas cenas de protesto do filme, que eram para ser encenação, as pessoas comuns de Nova York se envolveram tanto com a verdade de tudo aquilo que se tornou mesmo uma passeata contra o que ocorre hoje no mundo. Hoje não há mais a Guerra do Vietnam, mas há o Oriente Médio, a Globalização, a perda dos valores essenciais", responde Julie, que era criança quando canções como Come Together e Hey Jude elevavam os Beatles ao status da fama de Jesus Cristo. "Eu era a caçula e via os meus irmãos enlouquecerem com os Beatles. Isso acabou perpassando toda minha formação", explica ela, que nasceu em 1952, e não se abala com as críticas, que são infinitamente menores que os elogios a este libelo contra a indiferença.  Os mais jovens, ou mais céticos, podem torcer o nariz. Os mais apaixonados pela época podem cair de amores. Mas, ao fim, não há como negar: All we need is (still) love.

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