Acervo da Multifilmes pode desaparecer

A Multifilmes surgiu, em 1952, com inovações que as outras companhias cinematográficas na época não dispunham, como uma fábrica própria de refletores, a primeira do Brasil. Os estúdios foram construídos por Mario Civelli em Mairiporã, cidade situada a 38 km de São Paulo. "A escolha foi estratégica, pois, na época, estava sendo construída a rodovia Fernão Dias", conta Pedro Tomás Pereira, pesquisador da história da cidade. "O problema é que as obras atrasaram e a estrada só foi inaugurada em 1960, seis anos depois do previsto e quando os estúdios já não funcionavam mais."Na imensa área de 52 mil metros quadrados onde existiu a Multifilmes e por onde passaram nomes consagrados (Procópio Ferreira, Eva Wilma, Paulo Autran, Roberto Santos, Luíz Sérgio Person, Anselmo Duarte e outros), existe hoje um terreno abandonado e tomado pelo mato. Dos estúdios, sobraram apenas quatro galpões. "Depois que a companhia fechou, em 1958, a área foi ocupada por uma fábrica de instrumentos musicais, a Weril, que depois se mudou para Franco da Rocha", conta Pereira.O estado desolador dos estúdios em nada lembra seus momentos dourados, no início da década de 50. Na época, cerca de 200 pessoas trabalhavam na companhia que, em apenas dois anos, chegou a produzir nove filmes. A começar por Modelo 19, de 1952, estrelado por Ilka Soares e com nomes curiosos como o escritor José Mauro de Vasconcelos e Waldemar Seyseell, que depois celebrizou-se como o palhaço Arrelia.Trata-se da história de cinco imigrantes que se conhecem a bordo de um navio a caminho do Brasil, onde recomeçam suas vidas após a guerra. "Além de marcar a estréia como roteirista de um certo Vão Gogo (na verdade, o pseudônimo de Millôr Fernandes), o filme é interessante também por mostrar imagens históricas, como o Vale do Anhangabaú completamente vazio", conta Patrícia Civelli, filha de Mário e atual guardiã do acervo que resistiu à degradação.Futebol - Em sua busca por patrocínio para conservar o material, Patrícia conta ainda com um apoio reduzido - como o da Funarte, na recuperação de outro filme, O Craque, de 1953, um dos mais curiosos produzidos pela Multifilmes. É a história de um jogador de futebol apelidado de Joelho de Vidro (vivido por Carlos Alberto) que, além de tentar firmar-se como titular no time do Corinthians, luta pelo amor de uma garota (a iniciante Eva Wilma), que divide sua atenção com um rapaz rico (Herval Rossano).Para dar mais veracidade à trama, o filme tem cenas rodadas no estádio do Pacaembu que, na época, ainda contava com a Concha Acústica onde hoje existe o Tobogã, e no Parque São Jorge, a sede do Corinthians. Os principais jogadores do time, aliás, como Gilmar, Cláudio, Luizinho, Baltazar e Carbone, participam em rápidas cenas. O filme apresenta também momentos raros, como Eva Wilma e Carlos Alberto passeando no Rio Tietê. "Foi nesta obra também que aconteceu o primeiro close de um beijo no cinema brasileiro", informa Patrícia.A única cópia remanescente de O Craque estava virando pó. Com o auxílio da Funarte, Patrícia Civelli conseguiu salvá-la. O problema estava na banda sonora, completamente perdida. "Eu até consultei o Alberto Dines, autor do roteiro, na tentativa de recompor os diálogos." A solução surgiu a partir de uma situação inusitada - no ano passado, Patrícia recebeu o telefonema de uma pessoa que garantia ter uma cópia em VHS do filme. "Era uma cópia pirata feita a partir de um negativo que foi conseguido no laboratório, na época do filme", conta ela que, apesar da maneira ilícita como foi feita a cópia em vídeo, só pode agradecer. "Graças à tecnologia atual e a essa fita, poderemos recompor os diálogos do filme."Outra obra cuja existência resume-se a apenas uma cópia é "O Destino em Apuros", de 1953. Trata-se do primeiro filme brasileiro em cores e conta a história de dois jovens, interpretados por Paulo Autran e um quase adolescente Hélio Souto, disputando o amor da bela Beatriz Consuelo. A existência dessa cópia surpreendeu Autran, que julgava o filme perdido. "Ele acreditava que nunca mais assistiria a um trabalho tão antigo", comenta Patrícia.Zoológico - Ao mesmo tempo em que produzia filmes, Mario Civelli recebia a visita de astros estrangeiros. Acompanhou, por exemplo, as atrizes Lea Massari e Giulietta Masina (mulher de Fellini) e o diretor Mario Monicelli em um curioso passeio: a inauguração do zoológico paulistano. Ciceroneou também Glenn Ford, que veio a São Paulo rodar O Americano, um estranho faroeste ambientado na cidade. Como o trama depreciava a capital porém, Civelli desistiu de fornecer apoio. Apesar de o filme permanecer inédito, Ford sempre o manteve em seu currículo.Civelli era um empresário obstinado. Bonachão, sua figura lembrava a de Orson Welles, especialmente pela disposição em investir em seus projetos. A tentativa de ocupar o mercado com produções nacionais, porém, trombou com a política de distribuição, dominada pelas companhias estrangeiras que boicotavam as fitas brasileiras. Com isso, o prejuízo foi crescente até se tornar insustentável, obrigando-o a fechar a Multifilmes.Antes, lá realizou produções derradeiras, como O Grande Desconhecido e Rastros na Selva, sobre desbravamento de florestas. As fitas atraíram a simpatia do marechal Rondon, que consentiu a Civelli filmar sua biografia. O cineasta dedicou anos em pesquisas, mas não conseguiu realizá-la até sua morte, em 1993, aos 70 anos. O projeto passou para Roberto Faria, que se interessou em recriar o encontro de Rondon com o ex-presidente americano Theodore Roosevelt, no coração das selvas brasileiras."Vou catalogar todo o material dessa pesquisa", conta Patrícia, que há três anos vasculha os papéis espalhados em seu apartamento, fazendo novas descobertas a cada mexida. A partir da catalogação, pretende realizar documentários sobre a Multifilmes e a Maristela. Incansável, seu lema, adotado de um museu francês, é Um futuro para o nosso passado.

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