Acervo da Atlântida pede socorro

Quem foi ao Sesc Pompéia na quarta-feira à noite, para a exibição de Fantasma por Acaso, no evento em homenagem à Atlântida, viu apenas parte da divertida chanchada de Moacir Fenelon, um dos fundadores do estúdio, interpretada por um dos astros da casa, Oscarito. Faltavam cerca de 10 minutos do material rodado pelo diretor. E quem for ver, no mesmo evento, na semana que vem, Luz dos Meus Olhos, de José Carlos Burle, uma história de cegueira que traz, num de seus raros papéis no cinema, a grande Cacilda Becker, vai ver menos ainda - a versão a ser exibida tem apenas 59 minutos, o que leva o curador da mostra 60 Anos de Atlântida a estimar que faltem pelo menos 30 minutos, já que as produções da época invariavelmente tinham cerca de 90 minutos de duração.Montador de filmes, professor de História do Cinema na Faap, Máximo Barro integra o Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro. Está empenhado em levar a luta que é uma das bandeiras do CPCB. É preciso, com urgência, preservar boa parte dos filmes produzidos no País e que estão ameaçados de desaparecimento. "Esse evento da Atlântida é como um grito de socorro; queremos sensibilizar as pessoas, as empresas, para que elas invistam na preservação do cinema brasileiro, senão, muito em breve, uma parte substancial da memória cinematográfica nacional estará irremediavelmente perdida."É dessa maneira que Barro explica a ausência, na mostra, do filme mais importante de Fenelon - e uma das obras menos conhecidas do cinema brasileiro dos anos 50. Tudo Azul foi o último trabalho do cineasta. Faz a ligação entre Favela dos Meus Amores, de Humberto Mauro, nos anos 30, pioneiro na exploração da tragicidade e exuberância (até mesmo musical) do morro carioca, e Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, nos 50, feito sob forte inspiração neo-realista e considerado um dos precursores da estética política do cinema novo. Tudo Azul conta a história de um funcionário público que sonha ser compositor. Numa cena famosa, Fenelon sobe o morro com sua câmera para mostrar Marlene, a estrela que disputava com Emilinha o título de "a maior" entre as cantoras do rádio da época, cantando Lata d´Água na Cabeça.Ele também gostaria de mostrar esse filme, tão pouco visto e tão cultuado por aqueles que tiveram a ventura de conhecê-lo. Mas de que jeito? "O MAM, do Rio, que dispõe de uma das únicas cópias do filme, não a emprestaria jamais; ela está muito precária e não resistiria à passagem pela máquina de projeção." Cada vez que um filmes desses, antigo e mal conservado, é exibido, perde anos de vida. Por isso, Barro lança o seu brado de socorro. "Vamos preservar o cinema brasileiro!" Interessados em participar da restauração dessas obras tão importantes do cinema brasileiro podem contactar o CPCB pelos fones (21) 551-7967 e 552-4116.

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