JOSHUA WHITE
JOSHUA WHITE

Academia de Hollywood anuncia a inauguração de seu museu, depois de doações generosas de artistas

Valioso acervo inclui os sapatinhos vermelhos usados por Judy Garland, em 'O Mágico de Oz', até um molde da mandíbula do tubarão do filme de Steven Spielberg

Ubiratan Brasil, ENVIADO ESPECIAL LOS ANGELES

17 de fevereiro de 2020 | 06h00

Uma gigantesca esfera de vidro, aço e concreto que parece flutuar sobre o chão está alterando o visual da região oeste de Los Angeles. Esse será um dos espaços mais atraentes do novo Museu da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que será inaugurado no dia 14 de dezembro. A construção está na reta final e sua conclusão vai colocar um ponto final em uma obra iniciada há 5 anos e várias vezes interrompida por falta de verbas – o término está garantido depois que uma campanha de arrecadação de fundos conseguiu US$ 368 milhões, que correspondem a 95% do total necessário (US$ 388 milhões). “Fãs de todo o mundo sabem da importância que esse museu terá para a preservação da memória do cinema e só podemos agradecer as contribuições”, comentou Bill Kramer, diretor do espaço.

De fato, quando abrir suas portas (a data da inauguração foi oficialmente informada por Tom Hanks durante a cerimônia do Oscar, no dia 9), o Museu da Academia de Cinema vai se tornar um novo ponto turístico da cidade graças a seu valioso acervo, que inclui desde os sapatinhos vermelhos usados por Judy Garland em O Mágico de Oz (1939), passando pelas portas do fictício Rick’s Café, frequentado por Humphrey Bogart em Casablanca (1942), ou a capa de Drácula usada por Bela Lugosi no filme de 1931, até chegar ao único molde ainda existente da mandíbula do tubarão criado para o longa que consagrou Steven Spielberg, em 1975.

“Todo o material colecionado pela Academia desde os anos 1930 vai compor o acervo, acrescido ainda dos objetos que comprovam a evolução tecnológica do cinema”, continua Kramer, que recebeu o Estado e um seleto grupo de jornalistas para uma visita de reconhecimento. Foi possível observar que as obras estão em fase final e entender a configuração do museu só é possível, por enquanto, na imaginação ou por meio de croquis computadorizados.

Os números da coleção, porém, são reais e gigantescos: mais de 85 mil roteiros, 100 mil objetos de produção, 190 mil filmes e 12,5 milhões de fotografias, além de 1.700 objetos pessoais que pertenceram a figuras lendárias como Katharine Hepburn, Cary Grant e Alfred Hitchcock. Haverá ainda espaço para objetos raros, desde rudimentares câmeras de filmar usadas no início do século passado até o primeiro modelo do Steadicam, estabilizador criado por Garrett Brown em 1974 e que dá a impressão de que a câmera flutua, evitando trepidações na imagem.

A porta de entrada do museu será em um prédio inaugurado em 1939, então ocupado pela May Company. Transformado em patrimônio histórico e cultural em 1992, o edifício foi cedido para a Academia, que contratou o arquiteto italiano Renzo Piano para adaptá-lo como museu. Piano também criou um novo prédio de estilo moderno (justamente a gigantesca esfera de vidro), que estará acoplado na parte de trás do edifício histórico, totalizando uma área de 3.600 m². Ali funcionarão duas salas de exibição: a maior, com mil lugares e toda decorada em vermelho (alusão ao famoso tapete), terá uma tela capaz de abrigar exibição de todo tipo de filme, até do antigo nitrato. Uma segunda sala, em tom verde, terá 288 lugares e uma programação diária.

A programação das duas salas será administrada por Bernardo Rondeau, carioca que trabalha na Academia desde 2014. Segundo ele, para a inauguração, está prevista uma retrospectiva do mestre de cinema de animação japonês Hayao Miyazaki, em colaboração com seu estúdio Ghibli – além da exibição de filmes, haverá uma exposição com mais de 200 objetos, entre desenhos conceituais, storyboards e ambientes imersivos baseados em filmes como A Viagem de Chihiro (2001). Depois, haverá uma exposição sobre a história dos diretores afrodescendentes americanos e sua contribuição para o cinema.

Como o capital foi levantado a partir de doações de particulares, muitos espaços levarão o nome dos principais contribuintes. Assim, a gigantesca esfera de vidro já é conhecida como Barbra Streisand Bridge. O Brasil terá ainda uma participação mínima: segundo Rondeau, o acervo da Academia conta apenas com o vestido usado por Sônia Braga em O Beijo da Mulher Aranha (1985), um filme de testes de figurinos com Carmen Miranda e cartazes de longas como Barravento (1962). 

Academia não sabe ainda como tratar seu ‘lado sombrio’

O Museu da Academia ainda não foi inaugurado, mas uma discussão já o coloca em xeque: como tratar de nomes como do produtor Harvey Weinstein e do ator Kevin Spacey, que fazem parte da história da indústria, mas hoje são processados por assédio sexual?

Um porta-voz do Museu disse à revista The Hollywood Reporter que o espaço “explorará todo o escopo da história do cinema, incluindo conversas sobre questões como o movimento #MeToo” e apresentará histórias “em contextos completos e transparentes”.

Thomas Doherty, historiador de Hollywood e professor da Universidade Brandeis, disse à revista que o Museu da Academia deve olhar para os crimes sexuais de frente. “Não se pode esconder esses fatos”, afirma. “Não podemos negar o lado sombrio de Roman Polanski. Mas também não podemos nos esquecer que Chinatown pode ser o melhor filme dos anos 1970.” Aliás, Weinstein e Polanski foram os únicos expulsos por ora pela Academia.

Acervo

237 mil

filmes e vídeos históricos

133 mil

objetos, como uma biga de Ben Hur (1959) e uma das tabulas de Os Dez Mandamentos (1956)

85 mil

roteiros originais, publicados ou não, a partir de 1910 

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