Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Acaba em novembro prazo para que parte das salas de cinema do País seja acessível aos cegos

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 6,5 milhões de pessoas têm deficiência visual no País

Ana Carolina Sacoman, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2018 | 06h00

Misako estuda cada detalhe do filme, passa dias tentando traduzir em palavras o “céu pálido” visto na tela. Ela não deve interferir no entendimento da película, não pode invadir a fala dos personagens nem expressar opiniões pessoais. Tem de estar presente e ausente ao mesmo tempo. Seu desafio é fazer com que cegos ou pessoas com a visão reduzida entendam a trama e, mais, se emocionem.

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Ela é a personagem principal de Esplendor (Radiance/Hikari), filme japonês de 2017 que mostra o dia a dia - e os conflitos - de uma profissional que trabalha com audiodescrição. “Fazemos com que um adulto que perdeu a visão perceba que pode voltar a fazer as coisas de antes”, resume Livia Motta, audiodescritora “na vida real” e autora de livro sobre o assunto. “A audiodescrição abre caminhos para a leitura do mundo.”

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Esses caminhos, porém, já poderiam estar um tanto mais abertos no Brasil. É que, desde julho de 2015, o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146) estabelece, no Artigo 67, que “serviços de radiodifusão de sons e imagens devem permitir o uso de subtitulação de legenda oculta, janela com intérprete de Libras e audiodescrição”, na tentativa de promover a inclusão de cegos e surdos.

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Prazos. A Agência Nacional de Cinema (Ancine) então formou grupos de discussão sobre o assunto e, entre outras questões, foram definidos prazos para a implementação da acessibilidade nos cinemas. E aí as coisas se complicaram.

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Em setembro de 2016, a Instrução Normativa 128 definia que, em 14 meses, 50% dos grandes exibidores (a partir de 21 salas de cinema no País) e 30% dos pequenos (para grupos de até 20 salas) deveriam ser acessíveis, chegando a 100% das salas dali a 24 meses, ou seja, em setembro de 2018. Pouco mais de um ano depois, nova Instrução Normativa, de novembro de 2017, estendia os prazos, começando com a acessibilidade parcial em novembro próximo. Mas há quem acredite que será difícil cumprir a norma mais uma vez.

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“A lei brasileira é única no mundo, pois também exige a acessibilidade via Libras (Língua Brasileira de Sinais), o que criou grande resistência dos exibidores”, diz Paulo Romeu, consultor técnico da Organização Nacional de Cegos do Brasil e autor do Blog da Audiodescrição. 

É que, como acontece com a TV há mais tempo, a acessibilidade via Libras, para surdos, exige aquele “quadradinho” com o intérprete em um pedaço da tela, o que poderia causar estranheza no público em geral. “Enquanto o mundo trabalha em uma solução de acessibilidade tanto no hardware quanto no software, o Brasil tem essa outra questão (das Libras) para ser resolvida”, afirma o presidente da Ancine, Christian de Castro.

Ele aponta ainda uma outra dificuldade: os sotaques. “Uma legendagem de Libras no Sul teria diferença de uma no Norte e Nordeste. Como no interior de São Paulo é diferente da capital ou do Rio. Isso é uma particularidade brasileira.”

Pepino. “O Brasil tem uma lei de inclusão ampla, com uma força grande, que fala de acessibilidade de sites e manifestações culturais. Por outro lado, a lei assustou muita gente que não tinha pensado nesse público”, acredita Mauricio Santana, vice-presidente da Associação Brasileira de Audiodescrição (Abrad) e diretor da Iguale, empresa que produz conteúdo acessível e representa no Brasil o aplicativo de acessibilidade MovieReading.

Público que não é pequeno: de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 6,5 milhões de pessoas têm deficiência visual no País. Outros 9,7 milhões são deficientes auditivos.

Se o pioneirismo dificulta todo o processo, a pirataria também não ajuda a discussão a andar. Enquanto a legenda descritiva e a audiodescrição podem ser feitas pelos próprios estúdios, a linguagem de Libras teria de ser trabalhada por terceiros, o que aumenta o risco de as cópias de filmes chegarem às mãos dos camelôs muito antes de irem para as salas de projeção. “A gente quer ter acessibilidade, que o cinema chegue ao maior número de pessoas possível, sobretudo o filme brasileiro, mas não podemos correr o risco de dilapidar o valor da propriedade intelectual”, diz Castro, da Ancine.

Recente. Realidade nos Estados Unidos desde os anos 70, a audiodescrição é relativamente recente no Brasil. A primeira vez que o recurso apareceu por aqui foi em 2003, no festival de cinema Assim Vivemos, de filmes sobre pessoas com deficiência, patrocinado pelo Banco do Brasil. De lá para cá, algumas iniciativas começaram a promover a inclusão dos cegos às salas de cinema.

Uma delas é o Festival Melhores Filmes, do Cinesesc, em São Paulo, que há sete anos exibe películas com legendas abertas (detalhadas) e audiodescrição feita ao vivo. “O festival é uma missão, mas gostaria que toda a programação fosse acessível”, afirma a gerente adjunta do Cinesesc, Simone Yunes. “Já melhorou muito, mas no começo as distribuidoras não entendiam por que tinham de mandar o DVD do filme antes, foi bem difícil, e ainda é, mas isso começa a mudar.”

A mudança é bem mais lenta do que gostariam os beneficiados. Dos 42 espaços, com várias salas, listados em São Paulo pelo Guia de Acessibilidade Cultural, feito pelo Instituto Mara Gabrilli, apenas cinco oferecem opções de audiodescrição e legendagem, mediante pedido. A maioria das salas limita a acessibilidade de cegos a elevadores com aviso sonoro, guia vidente e cardápio do café em braile.

Procurados, Cinemark, Cinépolis e Grupo Severiano Ribeiro, os três maiores exibidores do País, segundo ranking de 2016 da Ancine, não quiseram comentar.

DEPOIMENTO DE PAULO ROMEU, AUTOR DO BLOG DA AUDIODESCRIÇÃO

“Perdi a visão em 1980, aos 22 anos, em um acidente de carro, e só fui voltar ao cinema há 5 ou 6 anos, quando descobri que o Cinesesc estava fazendo um festival com audiodescrição. Passei 30 anos sem interesse pelo cinema porque não achava justo pagar ingresso inteiro para assistir a meio filme, não valia a pena.

A diferença (entre alguém descrevendo a cena e a audiodescrição) é como água e vinho. O audiodescritor já conhece o filme, sabe quais elementos em cena precisam ser descritos para a pessoa entender a trama. Quando minha mulher ou outra pessoa descreve o filme para mim, ela diz, por exemplo, que um vestido é bonito ou feio. O profissional descreve a roupa em detalhes, faz diferença. Minha mulher também costumava pular cenas, para não perder o fio da meada, ou demorava para descrever, e eu ficava perdido.

Comecei a usar os aplicativos de audiodescrição e as coisas mudaram. Antes, quando emendava o cinema e um jantar com amigos, passava o tempo à mesa tentando entender o filme, juntando as peças que perdi. Hoje, uso esse tempo para, como eles, discutir o filme, dizer o que gostei ou não. Ganhei autonomia.”

3 PERGUNTAS PARA CHRISTIAN DE CASTRO - PRESIDENTE DA ANCINE

1. O prazo será cumprido?

Existem questões técnicas específicas relacionadas a isso, que precisam ser tratadas, tanto pelos exibidores como pelos distribuidores. Não queremos correr o risco de criar uma solução momentânea e logo depois ter de trocar isso porque não foi viável.

2. Qual é a dificuldade?

Tem o hardware, o software, a questão da pirataria e a solução das Libras a serem resolvidas. Essas questões serão debatidas nas câmaras técnicas (reuniões com exibidores, distribuidores e representantes da sociedade civil, que serão feitas até o fim do ano).

3. Como estamos em relação ao resto do mundo?

Hoje os principais players, não só locais como globais, estão olhando para a solução que vai sair do Brasil, porque provavelmente será replicada no mundo inteiro.

Teatros, museus e até casamentos têm audiodescrição

Enquanto nos cinemas a acessibilidade para cegos anda em marcha lenta, teatros, museus, salas de espetáculos e centros culturais em São Paulo parecem dar mais atenção a esse público, que soma 53 mil pessoas na capital - outras 292 mil têm “grande dificuldade para enxergar” -, de acordo com o Censo de 2010 do IBGE.

Na Sala São Paulo, no centro, por exemplo, há sessões de música clássica e ópera com audiodescrição. “Esse público não pode mais ser ignorado. Toda vez que fazemos espetáculo com audiodescrição vem gente nova”, afirma Livia Motta, que faz o trabalho ao vivo na Sala São Paulo, mas também em cinemas, teatros, museus e até em missas e casamentos. “Todos conseguem saber como é o vestido da noiva ou como a igreja está decorada nesses eventos especiais”, conta Livia.

Localizado no Morumbi, na zona sul, o Teatro Vivo aparece entre os bem ranqueados no quesito acessibilidade. O espaço deixou de oferecer serviço de audiodescrição para os expectadores, mas ele deve voltar após a reforma do teatro, prevista para começar nos próximos meses e que deve ser concluída no primeiro trimestre de 2019.

Entre os museus, a Estação Pinacoteca, no centro da capital, tem vários recursos para pessoas com deficiência, incluindo audiodescrição.

APLICATIVOS

* MovieReading. O aplicativo promete, ao toque de um botão, identificar a trilha do filme. Ele então reconhece a película e descarrega a audiodescrição ou a legenda sincronizada. Android e ios.

* Whatscine. Também reconhece o filme e descarrega a audiodescrição, mas funciona em determinadas salas de cinema. Android e iOS.

* Ideal AD Movie Viewer. Tem lista predeterminada de filmes. Em inglês. Android.

EM NÚMEROS

* 82 mil pessoas são cegas no Brasil e outras 6,5 milhões têm deficiência visual, de

acordo com o IBGE

* 3 mil salas de cinema estão espalhadas pelo País

* 7% das cidades brasileiras têm cinema

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