Abujamra assina trilha de "Bicho de 7 Cabeças"

Sem lei para fazer música, André Abujamra desafiou-se na composição da trilha sonora do longa-metragem Bicho de Sete Cabeças, com estréia prevista para o fim de abril, quando deve ocorrer também o lançamento do CD. Teve de coordenar sua criação com a música de Arnaldo Antunes - que, em muitos momentos do roteiro, pontua a história, agrega emoção à dramaticidade e até torna-se a palavra do personagem principal, o jovem Neto, interpretado por Rodrigo Santoro. "Eu crio a partir do zero. Sou louco. Se me derem referência, dificilmente consigo fazer. Se me pedem uma música sobre uma banheira, eu faço. Mas se me pedem pra fazer uma música sobre uma banheira rosa e francesa, não consigo. Preciso estar livre. E disse isso a Laís (Bodanzky, diretora do filme), que já estava com idéias concebidas sobre a música", afirma André Abujamra. "A Laís foi uma toureira comigo. Foi me ouvindo me namorando no sentido profissional e, quando vi, estava totalmente envolvido com o seu filme." O roteiro, escrito pelo marido de Laís, Luiz Bolognesi, faz uso da música de Antunes como elemento da narrativa. Laís explica que desde o início do longa-metragem a música do compositor foi, em muitos momentos, inspiradora. "O Luiz escreveu ouvindo os discos de Arnaldo (Ninguém, O Silêncio, Um Som); quando viu, já estava usando algumas letras no enredo de Bicho (baseado na história vivida por Austregésilo Carrano, internado pelo pai em um manicômio porque fumava maconha e que relatou seu drama no livro Canto dos Malditos)", diz ela. "A música participa da história." Segundo a diretora, as canções de Antunes foram ouvidas em todo o processo de realização do longa-metragem, como num jogo de estímulos. "O Luiz ouviu fazendo o roteiro, depois coloquei a música na seleção dos atores e, posteriormente, na preparação deles; ela fez parte dos bastidores do Bicho", afirma. Nesse caso, Arnaldo Antunes seria a pessoa ideal para compor a música de cena. Laís o convidou, mas ele não pôde fazê-la por estar com uma agenda lotada. "Seria a primeira incursão no cinema", lamenta Antunes. "Fiquei muito feliz por ver a minha música fazendo parte da narrativa, sendo usada de forma orgânica, e pelo tratamento dado a ela pelo André, que conseguiu ser autoral nesse trabalho." Antunes indicou André a Laís. "Acompanhei ótimos trabalhos dele, como a trilha do filme Castelo Rá-Tim-Bum", conta. Desde então, um novo jogo de estímulos iniciou-se. "Era preciso alguém que entendesse a forte personalidade da música de Arnaldo presente no filme e acrescentasse novos valores; fiquei muito surpresa com o trabalho de André, justamente porque ele teve de encarar a existência da música de um outro autor", diz ela. "Ele abstraiu e mergulhou, de coração."Sujeira - O Bicho de Sete Cabeças é emocionante. "Eu acho que o diretor de cinema, pelo menos aqueles com quem eu trabalhei, é a pessoa com o talento de reunir pessoas talentosas em torno de si; um conjunto de detalhes que faz a grande diferença", acredita André. Nesse caso, a absurda e real história de Carrano, que por três anos suportou eletrochoques e doses cavalares de medicamentos, apenas por fumar maconha, ganha ainda mais sujeira - já que muitos sanatórios são verdadeiros chiqueiros - com a trilha sonora de André. "Tive uma idéia muito louca: pegar o som direto do filme e distorcer totalmente; por isso, a trilha é muito suja, muito pesada", conta André. "Captamos o som da imagem e retrabalhamos tudo, eu e Pena Schmidt, muito importante nessa produção. Ele trabalhou comigo na época de Os Mulheres Negras. Puxamos só a voz do Arnaldo, o som das cenas, as respirações, e fui criando." A música, como diz André, é vagabunda. "Criei um tecno bem ralé, perturbado, sem pretensões vanguardistas", afirma. Essa paisagem sonora une-se organicamente à palavra cantada de Arnaldo. A integração fica melhor ainda em músicas de canto berrado, ligadas ao rock, como em Fora de Si ("Eu fico louco/ eu fico fora de si/ eu fico assim/ eu fica fora de mim"), do disco Ninguém (1995). "Mas muita coisa é só do Arnaldo e muita coisa é só minha. Há divisões, mas o legal é que o longa tem uma cara musical. Não é uma colcha de retalhos." Há composições de outros autores, como Geraldo Azevedo e Décio Rocha, na trilha sonora de o Bicho. A alucinação musical de André, entretanto, teve outras fontes de inspiração. "Me perdi na loucura do filme, porque eu também já estava louco. Estava me separando de minha segunda mulher, o Rodrigo se separando da mulher. Tinha mesmo alguns loucos de verdade. Então, pensei: já que estou assim, vou entrar de cabeça", conta. "O filme é muito forte. Depois do diretor e do editor, a pessoa que mais vê o longa é o músico. Decorei falas. Deu dor no coração." A trilha foi feita dentro do estúdio de André. "Eu tinha acabado de fazer o Castelo, que me consumiu muito e em que a música foi feita com orquestra; o Bicho, eu decidi que faria praticamente sozinho. Coloquei um baixista e um baterista nessa salinha, depois de ter pensado tudo na cabeça antes de entrar no estúdio e de ter feito muita coisa no computador."Experiência - André tem 35 anos e 20 de carreira, tanto como compositor de cena como de banda, hoje, o Karnak. Fez as trilhas dos filmes Carlota Joaquina, de Carla Camuratti, Os Matadores e Ação entre Amigos, de Beto Brant, Um Copo de Cólera, de Aluizio Abranches, Castelo Rá-Tim-Bum - O Filme, de Cao Hamburger, e Domésticas - O Filme, de Fernando Meirelles e Nando Olival, além de música para curtas e médias-metragens e de ter atuado como ator. "É muito maneiro fazer trilha de cinema, mas é muito delicado. Eu nasci músico e dentro do teatro. A música pra mim tem a ver com o visual. Tomava leite na teta da minha mãe na coxia, vendo os atores atuando. O músico que quer fazer trilha de cinema não pode ser só músico, tem de entender um pouco de cinema, de imagem e de diretor de cinema. Acho que uma grande sacada para fazer música para cinema é conhecer o diretor, saber intuitivamente como o cara está pensando, prevendo o que ele vai sentir", conta ele. "O Karnak é a minha utopia. Se eu pudesse viver em cima de um palco, eu seria a pessoa mais feliz do mundo, mas acho não vou poder ficar a vida inteira nele. Já a música para o cinema, eu quero fazer a vida inteira."

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