'Abraços Partidos' radicaliza no seu jogo de aparências

Pedro Almodóvar diz em entrevista a um grupo de jornalistas, que filmou a ilusão para entender o real

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

04 de dezembro de 2009 | 01h00

Atriz Penélope Cruz em cena de 'Abraços Partidos'. Foto: Divulgação/Paola Ardizzoni

 

SÃO PAULO - Nos últimos anos, Pedro Almodóvar tem levado ao Festival de Cannes grandes filmes - Tudo Sobre Minha Mãe, Volver, Abraços Partidos. Ele chega sempre como favorito, alguns júris lhe outorgam bons prêmios de consolação - direção, roteiro, interpretação. Este ano, com Abraços Partidos, que estreia hoje no Brasil, não houve nenhuma consolação para Pedro - o júri presidido por Isabelle Huppert o ignorou, por completo. Ele intuía que isso poderia ocorrer, na entrevista concedida a um pequeno grupo de jornalistas, numa tarde particularmente atribulada de maio, na Croisette. Almodóvar estava mesmo cansado da condição de favorito.

 

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video Trailer de 'Abraços Partidos'

 

Você é o primeiro a afirmar que seus filmes têm gêneses curiosas. Como foi a de Abraços Partidos?

Mais curiosa que de hábito. Faz um tempo que visitei a ilha de Lanzarote e tirei algumas fotos daquela praia, que é tão bela. Lembrava-me da praia deserta, pois era fora de estação, mas ao revelar as fotos, como o protagonista de Blow Up - Depois Daquele Beijo (de Antonioni), fiz uma descoberta. Havia um casal abraçado. Como não os havia percebido? Ocorreu que há dois anos fiquei doente e tive de passar um período na obscuridade. Comecei a pensar nessa história sobre um diretor cego, em consequência de um acidente, e incorporei a imagem do casal na praia, que tanto permanecia comigo.

 

Seus filmes tratam de duplos e misturam gêneros. Você concorda que este parece um melodrama à Douglas Sirk impregnado de cinema noir?

O duplo realmente me atrai como representação da realidade, até porque um personagem é um personagem, sobre o qual cada um de nós projeta suas ansiedades e referências. Eu penso uma coisa, você pode projetar outra. O filme tem a cena em que o maquiador diz a Penélope (Cruz) que se parece com Audrey Hepburn, mas ela também usa uma peruca loira, que pode se assemelhar a Marilyn Monroe. O melodrama e o humor sempre me acompanham. Fazem parte da minha cultura, do meu imaginário. E existem elementos noir, bem fortes até, mas hesito em proclamá-los porque isso pode alimentar expectativas. Vão dizer que eu revoluciono o noir, e talvez não seja bem o caso.

 

O protagonista do filme é um cineasta que perde a mulher e a visão - e vira escritor, trocando de nome. A estrela era uma garota de programa por quem um milionário se apaixona. E existe o diretor que retoma um velho projeto que a morte da estrela deixou interrompido... Ou seja, desta vez você radicalizou, não?

Tenho um amigo que se diverte muito analisando meus roteiros. Diz que são tão complicados que só eu conseguiria realizá-los. Não creio que isso seja totalmente verdade, mas estou certo de que eles dependem de um tom, que só eu posso imprimir. Cada projeto meu consome, em média, dois anos. É muito tempo para conviver com personagens e situações. Eles vão virando fantasmas que passam a me assombrar. Adoro escrever roteiros, filmar. Faço isso com liberdade e descontração. O lançamento, em contrapartida, é sempre tenso. E tenho de ficar dando entrevistas. Muita gente se surpreende quando digo, mas fazer filmes é negócio difícil. A pressão é brutal. Nos festivais, sinto-me como fera enjaulada. Gosto ainda menos de participar de júris. A única competição que me mobiliza é a das salas, quando o público se manifesta.

 

Seus filmes fazem sucesso em todo o mundo. Isso é liberador?

E m termos. Libera e me permite fazer os filmes que quero sem muitos contratempos, mas, ao mesmo tempo, há uma cobrança cada vez maior por resultado.

 

Abraços Partidos é, entre outras coisas, sobre o cinema?

Acho que é. Sobre olhar e ser olhado, sobre a intimidade devassada por câmeras.

 

No filme dentro do filme, ao descobrir que Penélope está tendo um caso com seu diretor, o milionário com quem ela vive contrata uma equipe para segui-la e filmá-la, em busca de evidências. E ele contrata uma leitora de lábios para saber o que Penélope diz ao amante. Na grande cena, ela própria faz a leitura - a dublagem é uma evocação de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos?

Sim, claro, mas também é, principalmente, um filme sobre linguagem. Falo no sentido específico da palavra. Em meus filmes, sobretudo nos primeiros, a paixão era vivida como puro instinto. Tudo o que eu queria era transgredir. Com a idade, fui ficando mais reflexivo. Fale com Ela não tem aquele título por acaso. O falar hoje em dia é muito importante para mim. Falar, refletir. Nenhum outro filme meu tem tantas revelações quanto as do desfecho de Abraços Partidos. Mas, por favor, não tirem o prazer do público. Não revelem nada.

 

Por que você cita o clássico de Rossellini, Viagem na Itália?

Não é segredo que sou cinéfilo. Tenho citado filmes de Buñuel, Michael Curtiz. Às vezes, a referência é sutil, feita para mim mesmo, e as pessoas nem percebem. Aqui, Penélope (Cruz) e Lluis (Homar) assistem na TV a uma cena de Viaggio in Italia, aquela em que George Sanders e Ingrid Bergman assistem à exumação do casal que morreu abraçado, devorado pela lava do Vesúvio. Luis acredita, no filme, que estava abraçado com Penélope quando houve o acidente de carro. Sua memória é falsa, mas muita coisa em Abraços não é aquilo que parece ser. Escolhi Rossellini para falar sobre sentimentos, sobre o falso na realidade e o verdadeiro no cinema.

 

Você oferece outro grande papel a Penélope Cruz. Ela declarou que o entendimento entre vocês é total. O que me diz dessa sintonia profissional entre vocês?

Conheço Penélope desde que ela tinha 17 anos. Vi-a crescer, como mulher e atriz. Penélope é iluminada. O que eu fiz, para servir à personagem, foi colocar um pouco de sombra nessa luz toda. Acho que isso pode servir de metáfora para o próprio filme. Mas a verdade é que Penélope ainda me surpreende. Ela está sempre pronta a atuar em todos os registros, a se testar, a ir aos limites. Meu cinema deve muito aos atores. Não apenas Penélope. Blanca (Portillo), Carmen (Machi), Lluis (Homar). Se alcancei alguma coisa em Abraços Partidos, foi por causa deles.

 

Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos, Espanha/ 2009, 129 min.) - Drama. Dir. Pedro Almodóvar. 14 anos. Cotação: Ótimo

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