Abertura foi pouco convincente

Dois longas-metragens razoáveis, mas no fundo pouco convincentes, abriram na segunda-feira à noite a 28ª edição do Festival de Gramado - Cinema Latino e Brasileiro. As Profecias de Amanda, do cubano Pastor Veja, e O Pianista, do espanhol (mas de origem uruguaia) Mario Gras, não entusiasmaram tanto o público de Gramado, mas também não o entediaram irremediavelmente. Houve até mesmo alguns momentos de graça, quando a atriz cubana Daisy Granados, presente na platéia, foi aplaudida em cena aberta. No final dos dois filmes, porém, os aplausos foram protocolares. E essa recepção estava de bom tamanho para ambos. Não que as produções não tenham qualidades. Têm. As Profecias de Amanda, por exemplo, fica interessante quando revela, pelas frestas, a realidade cubana, sempre instigante e saborosa. Impossível não pensar, porém, que muitas vezes procura folclorizar (no mau sentido do termo) essa mesma realidade, vendendo um certo exotismo turistíco que parece forçado. Basta lembrar que, com a permanência da crise econômica em Cuba, o turismo, propriamente dito, passou a ser prioridade como porta de entrada de divisas. Vega, diretor veterano com vários longas no currículo (entre eles, Retrato de Teresa, Amor em Campo Minado e Vidas Paralelas), conta a história de Amanda, curandeira que, desde criança, revela ter o dom da profecia. É dada, como se diz em Cuba, a "santerias". O que há de estimulante no filme é mostrar que esse tipo de religiosidade popular nunca foi banido da ilha de Fidel, mesmo na fase mais heróica de um regime em tese baseado no materialismo histórico. Esse tipo de religiosidade está profundamente enraizado no imaginário popular; tira sua força do temor e da esperança das pessoas, do medo da morte e do anseio de salvação - e não há regime político que consiga contornar essas contingências. Menos convincente é a relação que se procura estabelecer entre Amanda, como pólo da crendice popular, e uma determinada posição oficial, científica e laica a respeito da paranormalidade. Os debates entre os doutores sobre o "caso Amanda" soam forçados, quando não risíveis. Há uma tentativa de posição intermediária com a entrada em cena de uma pesquisadora venezuelana, que se interessa pelo caso. Ela, ao mesmo tempo em que dispõe do arsenal científico para entender o fenômeno racionalmente, acaba por se envolver com a vidente. Tudo está muito bem, mas o espectador não consegue se livrar da impressão de que o filme hesita entre vários caminhos sem optar por nenhum deles. Não é que seja polifônico - é indeciso e titubeante, falhas que, provavelmente, começam no roteiro e se estendem à realização. Sobra a atuação de Daisy Granados, over nas cenas capitais, mas por isso mesmo convincente para quem não liga a mínima para sutilezas. Diz-se, por aqui, que já é forte candidata ao prêmio de interpretação feminina. Mas ainda é cedo para fazer prognósticos desse tipo. Em O Pianista, a impressão de artificialismo é ainda maior. A história, contada em flash-back é a de um triângulo amoroso de dois músicos amigos, apaixonados pela mesma mulher na Paris dos anos 30. Os três são catalães. Vivem os anos loucos parisienses, os anos da vanguarda, e também o começo da Guerra Civil Espanhola. Aliás, são separados pela guerra. Um deles abandona a carreira musical e vai lutar ao lado da República, contra Franco. O outro permanece em Paris, fiel a sua arte - e ao seu ego. Perde a mulher, que segue com o idealista, e, pelo que a história indica, perde também a sua alma.Enfim, vidas devastadas por um conflito que irrompe quando são jovens e vêem-se forçados a decidir qual o caminho a seguir. O Pianista é uma espécie de Jules e Jim sem o encanto e a magia de Truffaut, e uma realização pesada, apesar de um ponto de partida favorável, que é o texto do escritor espanhol Manuel Vásquez Montalban. O processo de filmagem, no entanto, não esconde um certo ar retrô e de baixa inspiração. Gas busca a emoção nos momentos musicais do filme, o que é um recurso fácil quando se dispõe de Chopin e velhas canções francesas. A parte cinematográfica, no entanto, fica devendo, e muito.

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