Alberto PIZZOLI / AFP
Alberto PIZZOLI / AFP

‘A Voz Humana’, curta de Almodóvar é apresentado no Festival de Veneza

Diretor espanhol chama de 'experiência de liberdade' seu primeiro curta, rodado em inglês

Gonzalo Sánchez, EFE

03 de setembro de 2020 | 18h55

VENEZA - O cineasta Pedro Almodóvar idealizou seu primeiro curta-metragem, A Voz Humana, apresentado nesta quinta, 3, no Festival de Veneza, como “uma experiência” de liberdade. Por isso, destrinchou o clássico de Jean Cocteau, no qual se inspira a história, e também o fez em inglês, modernizando a sua protagonista de coração partido, interpretada por Tilda Swinton. “Acho que será a última vez que incomodarei o texto de Cocteau com a minha adaptação”, brincou o diretor espanhol, que voltou à Mostra um ano depois de receber seu Leão de Ouro honorário para estrear esse trabalho fora de competição.



A Voz Humana, seu primeiro curta-metragem e também sua estreia em inglês, é uma adaptação bastante livre do monólogo de Cocteau (escrito em 1930) em que uma mulher abandonada implora por telefone a volta de seu amante. É um texto que, de fato, apareceu em várias ocasiões na filmografia do realizador espanhol. Carmen Maura o emula em A Lei do Desejo (1987) e esteve também na origem de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), uma de suas obras mais aplaudidas.

“Tem sido muito fértil e, de alguma forma, a situação de uma mulher abandonada, sozinha à beira da loucura e com um cachorro também abandonado, com quem ela divide o luto e muitas malas prontas, é uma situação dramática que sempre me estimulou”, disse Almodóvar.

A Voz Humana, no entanto, é modificado ao chegar ao universo de Almodóvar: sua narrativa pouco tem a ver com a submissão de outras atrizes famosas que interpretaram o mesmo papel, como Anna Magnani ou Ingrid Bergman. “Eu, quase de um modo natural, queria fazer algo absolutamente não só diferente, mas quase totalmente oposto, porque eu não reconheceria como contemporânea essa mulher que espera e fala com o ex-amante”, declarou. A mulher, interpretada por uma soberba Tilda Swinton, usa com modernos fones de ouvido sem fio, vagueia desesperadamente por uma casa e encontra uma ideia fugaz de redenção em um machado e ansiolíticos esperando o telefone tocar com a voz “dela”.

Assim, é possível dizer que, nos olhos da mulher, há um certo ar de bravura ao enfrentar a encruzilhada do desgosto, quando deve escolher entre morrer e descansar ou viver desconsolada. O diretor destacou que embarcar nessa aventura foi “um capricho”, vivido como uma “experiência de liberdade”. Todo o curta é banhado por uma importante marca teatral. A câmera quebra a quarta parede para deixar os sets e mostrar as paredes escuras do estúdio onde foi filmado e as telas verdes de chroma-key são envoltas em forma de cortinas. Essa liberdade é demonstrada pelo fato de que pouco ou nada resta do texto original de Cocteau. Almodóvar filmou após o relaxamento da quarentena na Espanha.

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