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'A Vizinhança do Tigre' se consagra em Tiradentes

Filme de Affonso Uchoa sobre a vida na periferia vence festival mineiro

Luiz Carlos Merten, Tiradentes - O Estado de S. Paulo

02 de fevereiro de 2014 | 21h53

E parece que os dois júris da Mostra de Tiradentes combinaram – premiaram os mesmos filmes. O Troféu Barroco para o melhor filme da Mostra Aurora de 2014 foi para A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa. Ambos os júris deram uma menção para Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós. O filme de Uchoa passou no primeiro dia da competição, e permaneceu como referência durante toda a realização do evento. O de Queirós chegou somente na sexta, último dia em que foram apresentados filmes concorrentes. Talvez exista algo de simbólico nisso. Alguma coisa como dizer que, do começo ao fim, a Mostra Aurora cumpriu seu perfil. 

Em março, os filmes que concorreram ao Barroco e outros selecionados das demais mostras – Sui Generis, Autorias, Transições – desembarcam em São Paulo, para uma programação especial no Cinesesc.

Prepare-se. Muita gente, e não apenas, necessariamente, os críticos, vive clamando contra o cinema brasileiro de mercado, mas na edição anterior da Aurora em São Paulo a adesão foi mínima, medíocre? O recorte autoral e processual dos filmes mais assustou que encantou. Em Tiradentes, a plateia é formada predominantemente por jovens. Na sexta, como o Caderno 2 já relatou, enceram a sala dos debates para o encontro com Andrea Tonacci e Luiz Rosemberg Filho. Os jovens possuem suas referências, e esses dois são parte dela. Rosemberg Filho estava há muito tempo sem filmar. O produtor e diretor Cavi Borges, o chamado Roger Corman do cinema brasileiro, permitiu-lhe voltar.

Rosemberg não tem papas na língua. Bate forte nas estratégias de mercado da Ancine. Tonacci, autor de Serras da Desordem, depois de dizer que o índio do filme era ele, cravou que a burocracia da Ancine ameaça inviabilizar o cinema indigenista no Brasil. E acrescentou: “Somos todos índios.” O público da Mostra Aurora, que se interessa mais por autorias que por estratégias de mercado, veio abaixo, num aplauso interminável. O título do debate poderia ter sido o do filme do paranaense Arthur Tuoto – Aquilo Que Fazemos com Nossas Misérias

Existem similaridades entre os dois filmes vencedores. Ambos estão listados no catálogo da 17.ª Mostra de Tiradentes como documentários. São filmes nas bordas – ficções que misturam gêneros e exibem as linhas de força do seu processo de criação –, bem como o curador (Cleber Eduardo) e o público de Tiradentes gostam. 

A Vizinhança do Tigre acompanha jovens da periferia de Contagem, cidade que integra a região metropolitana de Belo Horizonte. É dedicado a um deles, que morreu (de tuberculose). Outro está preso. O diretor ficcionaliza, mas os depoimentos são verdadeiros (documentários). Affonso Uchoa não olha esse mundo de fora. A vizinhança do tigre não é só a adversidade do mundo externo. É a turbilhão interior que os jovens que sofrem a exclusão têm de domar para não serem engolidos por ele.

Adirley Queirós também filma a periferia – a de Brasília. Ele já ganhou a Mostra Aurora com A Cidade nos Pertence, há um par de anos. Na época, o júri da crítica justificou seu prêmio falando na empatia dos personagens e na maneira criativa como o autor misturava passado e presente. A mesma justificativa valeria para Branco Sai, Preto Fica e, até certo ponto, para A Vizinhança do Tigre. Queirós é cineasta de Ceilândia, cidade satélite de Brasília. É onde vivem, desde o início da construção da capital federal, os excluídos. Os personagens integravam um grupo de moleques que dançava nas baladas (de sábado à noite?). Um levou bala da polícia e ficou paralítico. O outro perdeu a perna. 

E agora, vindo do futuro, um terceiro integrante visita o passado para colher provas para indiciar o poder. O exterminador do futuro. Simultaneamente, os que ficaram no passado preparam uma bomba, cuja voltagem é acelerada por sons retirados de raps e forrós. O repórter já falou aqui no Caderno 2 sobre o número 61 da revista FilmeCultura, que está discutindo o cinema de gênero do País. Existe uma ficção científica brasileira? E como se faz uma ficção científica sem os recursos de Stanley Kubrick ou James Cameron? Como se faz um filme futurista sem nenhum recurso?

No passado, Jean-Luc Godard já deu a pista, que Adirley Queirós não segue, com aquela estranha aventura do agente Lémmy Caution, em Alphaville. Branco Sai abre-se na velha Ceilândia, tão próxima e, ao mesmo tempo, tão distante de Brasília que é necessário passaporte para entrar na capital federal. A ideia não é só engenhosa como é crítica. Diz das condições em que vivem os segregados sociais. Como em A Vizinhança do Tigre, a música é um elemento forte na (r)evolução da trama. Pois há, em Branco Sai, com todas as liberdades de criação do autor, uma história que ele quer contar.

Havia histórias que os demais autores da Aurora também queriam contar, só que como o perfil não está no mercado, essas histórias não tendem a ser lineares e exigem do espectador. Outros filmes – até blockbusters de Hollywood –, quando feitos (com inteligência) por verdadeiros autores, também exigem. Qual é o mistério da Aurora, e de Tiradentes? É esta aposta radical na autoria, e na criação. A aposta não está só na Aurora. Está nas demais mostras, em filmes como Amador, de Cristiano Burlan; Paixão e Virtude, de Ricardo Miranda; e Passarinho lá de Nova Iorque, de Murilo Salles. Tomara que exista espaço – e disponibilidade – para que todos integrem a programação de Tiradentes em São Paulo.

Pela primeira vez, Tiradentes – toda a programação, e não apenas a Aurora – foi constituída por filmes feitos e exibidos no suporte digital. O futuro já chegou, e numa cidade histórica, no interior de Minas Gerais. Tanta coisa para destacar. O rap do grupo Pacificadores, de Brasília, no desfecho de A Vizinhança do Tigre é muito forte. Com certeza contribuiu para o impacto do filme de Affonso Uchoa. “Eu queria mudar/eu queria mudar/eu queria mudar/eu queria mudar.” Quatro ou cem vezes. O desejo de mudança dos excluídos muitas vezes choca-se com a indiferença do mundo. Mas o cinema está atento e forte. Crítico e vigoroso. Sem medo de ousar nem tempo de temer a morte.

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