"A Vingança dos Sith" é o melhor da nova trilogia

Com Episódio 3 - A Vingança dos Sith, o ciclo de Guerra nas Estrelas finalmente chega ao fim. Como muitos outros cuja idéia de cinema foi formada (e para alguns negada) pela primeira trilogia galáctica, eu fiquei decepcionado com A Ameaça Fantasma e Ataque dos Clones. Então, fui para a recente exibição do Episódio 3 para a imprensa, em Nova York, em alerta, talvez um pouco aborrecido, mas, para equilibrar, levei dois fãs cujo entusiasmo se comparava ao que senti em 1977, quando assisti a Guerra nas Estrelas, quer dizer, Episódio 4 - Uma Nova Esperança. Episódio 3 é, de longe, o melhor filme da nova trilogia, e também o melhor dos quatro episódios dirigidos por Lucas. Isso mesmo: é melhor até mesmo que Guerra nas Estrelas. A Vingança dos Sith, que foi exibido ontem aqui no Festival de Cinema de Cannes, se equipara a O Império Contra Ataca (1980) como o mais rico e mais desafiador da série. Alguns dos defeitos de Ameaça Fantasma (1999) e Ataque dos Clones (2002) estão ainda em evidência, e a indiferença do senhor Lucas a dois aspectos importantes do cinema - atuação e roteiro - é notável. Hayden Christensen faz a descida de Anakin Skywalker ao mau como uma série de petulantes acessos de mau humor. Natalie Portman como a senadora Padmé Amidala, com quem Anakin é casado em segredo, não consegue conciliar as complicadas e conflituosas necessidades do amor e da liderança política. Até mesmo atores renomados - Samuel L. Jackson como o mestre Jedi Mace Windu, Ewan McGregor como Obi-Wan Kenobi, Jimmy Smits como o senador Bail Organa - estão presos na obrigação de fazerem discursos. O senhor Lucas, que escreveu o roteiro (dizem com a não creditada ajuda de Tom Stoppard), não é daqueles que sugerem um tema se conseguem colocá-lo na boca de um personagem. Ian McDiarmid, como o chanceler Palpatine, que se transforma de um rançoso político em um totalitarista impiedoso ante os nossos olhos, oferece a melhor performance; Yoda, o ágil Jedi verde dublado por Frank Oz, também é um dos melhores do filme.De qualquer forma, ninguém foi ver um filme de Guerra nas Estrelas pela atuação. Mesmo quando voltou ao passado Jedi, Lucas inventou o cinema de futuro e a pura beleza, energia e coerência visual de A Vingança dos Sith tiram o fôlego. As lutas com o sabre de luz e seqüências de vôos são executadas com uma talentosa inquietude que faz você esquecer a conquista tecnológica que representam. Alguns dos melhores momentos estão entre os mais quietos - uma tarde na casa dos Skywalkers, por exemplo, enquanto eles discutem em sua espaçosa cobertura olhando a linha do horizonte da cidade que permite ver os raios do sol que se põe. A integração das imagens geradas por computador com as imagens captadas na realidade é diferente de qualquer coisa; Lucas superou Peter Jackson e Steven Spielberg em sua exploração da nova tecnologia. Mas qualquer filme precisa de uma história, e a melhor maneira de apreciar como esta tem sucesso é considerar os obstáculos que ela precisa superar para conquistar o público. Primeiro de tudo, apesar de haver poucas surpresas na narrativa, todos sabem a grande revelação do final, que foi uma grande revelação no final da primeira trilogia: Darth Vader é o pai de Luke. Nós também sabemos, na maioria dos casos, qual das grandes figuras vão sobreviver aos vários riscos a que são submetidos. Então, um elemento de suspense está faltando. Mais que isso, a trajetória da narrativa corta o otimismo dos blockbusters de Hollywood, pois vemos um herói transformar-se em um cruel e aterrorizador vilão. É uma conquista do filme que esse processo seja irritante, mesmo que sejamos lembrados que há redenção no horizonte em O Retorno do Jedi. E enquanto a atuação de Christensen fica longe de exibir a total textura psicológica desta transformação, Lucas a coloca em um poderoso e compreensivo contexto político.A Vingança dos Sith é sobre como a república acaba com seus princípios democráticos, como a política se torna militarizada, sobre como uma ideologia reduz o exercício racional do poder. Lucas está claramente colocando seu sabre de luz na direção de alguns líderes políticos do mundo real. Nesse ponto, Darth Vader, já amarrado ao lado negro e ecoando as palavras de George W. Bush, diz a Obi-Wan, "Se você não está comigo, é meu inimigo". Obi-Wan responde: "Apenas um Sith pensa em certezas". O surgimento do império e a perdição de Anakin Skywalker não são o fim da história, e a cronologia invertida mostra ser a coisa mais profunda de Guerra nas Estrelas. Colocadas juntas e vistas na ordem que foram feitas, elas revelam a natureza cíclica da história, que parece se repetir enquanto anda para frente. Democracias tornam-se impérios, impérios são derrubados por revoluções, pais abandonam seus filhos e filhos encontram seus pais.

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