Paramount Pictures
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'A Vigilante do Amanhã' adapta animação cyberpunk japonesa

Antes distópica, toda a estética cyberpunk do filme agora é perigosamente próxima de nós

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

30 Março 2017 | 05h00

O título acima poderia ser seguido de um ponto de interrogação. A afirmação ou o questionamento dessa frase são igualmente importantes para A Vigilante do Amanhã, ficção científica derivada do mangá (quadrinho japonês) e do posterior anime (animação nipônica dos mangás) Ghost in the Shell, datados de 1989 e 1995, respectivamente. “O que nos faz humanos?” É essa a questão principal ali, a busca pela humanidade perdida, em um futuro não tão distante, no qual corpos humanos são aperfeiçoados com máquinas - órgãos, membros, nada escapa de um ‘upgrade’ cibernético. Até que ponto alguém pode ser considerado humano? A habilidade de pensar, a consciência e o sentir são, naquele ano de 2029, as únicas características que diferenciam realmente um humano de um robô. E, aos poucos, até o limite parece se borrar, perder nitidez. A diferença vai para as cucuias, quando se vive em uma sociedade na qual a robotização está tão intrínseca e é tão banalizada quanto a troca do fígado por uma versão robótica do órgão para não sofrer de ressaca no dia seguinte a uma bebedeira.

Nesse mundo vive Major, a personagem de Scarlett Johansson, uma máquina quase completa. Fruto de um experimento de alto nível tecnológico, ela é a primeira do seu tipo a existir em pleno funcionamento. Um cérebro humano instalado em um corpo completamente robótico. Resta-lhe, apenas, a consciência, o centro do que restou de único na humanidade. O fantasma dentro da casca, numa tradução livre do título em inglês. Alguns a consideram o último passo da evolução da humanidade. Ela mesma não parece concordar. Sente-se na busca por um sentido para acordar todos os dias pela manhã (ou ligar seus circuitos). 

Ghost in the Shell foi a primeira animação japonesa a ganhar uma data de lançamento no Ocidente (Estados Unidos e Reino Unido) igual àquela do Japão. O ano era 1995 e os animes já representavam uma fatia importante da cultura japonesa no País. No estrangeiro, a bilheteria foi pífia e, no Brasil, o longa saiu diretamente em home vídeo. Desta vez, a escolha por Johansson é um carimbo para atestar que Hollywood aprova a história.

 

A escolha da atriz, contudo, gerou polêmica. Há quem afirme que ela seja ocidental demais para protagonizar essa distopia que se passa em alguma cidade asiática - possivelmente no Japão. Sua escolha, contudo, foi defendida até pelo aclamado diretor japonês da animação Mamoru Oshii. O que importa, dentro e fora do filme, é o que está dentro da casca. 

Quando o recluso Masamune Shirow criou a estética de Ghost in the Shell, o mangá que origina o filme estrelado por Scarlett Johansson e que chega hoje aos cinemas do País, o futuro lhe parecia sombrio. Era 1989. Computadores pessoais já existiam, mas eram raros. A internet, então, não passava de uma ideia biruta de ficção científica. Blade Runner, de Ridley Scott, já havia dito ao mundo que, em um futuro distópico, a linha que separa humanidade e robôs poderia ser tênue. E Shirow acrescentou mais molho nessa sopa. Se no filme que dava continuidade à ideia do livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? não havia meio-termo. Ghost in The Shell apresentou um protagonista que era os dois: humana e robô. Um cérebro, ou ghost (fantasma), dentro de um corpo robótico, a tal casca, ou shell, do título. Transformado em animação por Mamoru Oshii, em 1995, a história de Major, a protagonista que na nova versão é interpretada por Johansson, ganhou peso, cor e significado. O futuro utópico, o oásis tecnológico, também pode ser assustador.

Shirow e, posteriormente, Oshii nos fazem dar um mergulho no cyberpunk, na distopia que une cores néon, corpos meio robotizados e ciberterrorismo. Veja só e ria comigo: há mais de 20 anos, hackers eram uma previsão sombria, mas não passavam disso. Hoje, eles estão até em manchetes.

O universo imaginado do cyberpunk de William Gibson no livro Neuromancer, de 1984, está à porta. E não é por acaso que a estética que une alta tecnologia, anarquismo, opressores e oprimidos e baixa qualidade de vida estejam de volta. Até mesmo o clássico Blade Runner ganhará uma nova versão, mais uma vez com Harrison Ford. Seu personagem, no novo longa que estreia no fim do ano, ganhará a companhia de Ryan Gosling. Mad Max, que une a tecnologia em um mundo à beira do caos e do fim, foi revivido por George Miller há dois anos. Outro estouro.

 

É até aterrorizante imaginar como o cyberpunk jamais esteve tão próximo da realidade. Se ainda não há a banalização dos implantes robóticos em seres humanos, a tecnologia já está ao redor. Não há como fugir dela. Sistemas operacionais já são, cada vez mais, assistentes pessoais. O mundo está no seu bolso, na tela do smartphone. O Twitter já ajudou a deflagrar uma revolução, a Primavera Árabe, em 2010. O mundo, o nosso, está tão conectado que uma ficção científica como Ghost in The Shell, por vezes, não parece ser tão fictícia assim.

 

Por essa razão, a versão live action (como são chamadas as adaptações de animações para filmes com atores de carne e osso) da história da pouco humana Major tem mais chances do que aquela lançada com pompa em 1995, chegando aos cinemas japoneses, norte-americanos e britânicos na mesma data, mas que fracassou em bilheteria. Era ficção demais. Hoje, não.

 

A Vigilante do Amanhã, nome dado à versão brasileira do longa, enfrentará uma tarefa que outros tentaram dar conta, mas falharam. Adaptações de mangás e animes nunca funcionaram devidamente fora do Japão, mesmo quanto produzidas por estúdios norte-americanos. Oldboy, de Spike Lee, por exemplo, reinventou o filme de 2003 e o quadrinho de 1996, e morreu na praia. No Limite do Amanhã, uma boa ficção protagonizada por Tom Cruise, também não foi longe. A lista é vasta.

 

O dilema da personagem de Scarlett Johansson, contudo, é o trunfo do longa de Rupert Sanders. O que faz dela humana, sua consciência, é o que nos dá humanidade no tempo em que andamos curvados nas telas dos celulares em elevadores, filas de espera ou vagões de metrô. Conectar-se com o mundo todo e, ao mesmo tempo, estar distante e alheio ao redor. Parece ficção científica? Mas não é. 

JAPÃO PARA OS EUA

Mutronics - O Futuro da Raça Humana

Com Mark Hamill no papel principal, filme adaptava um mangá de 1985, mas nunca foi levado muito a sério 

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Dragon Ball - Evolução

Um dos mangás e animes mais populares de todos os tempos teve uma adaptação tão risonha que nem mesmo os fãs mais ardorosos conseguem encontrar alguma qualidade ali 

Oldboy

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