"A Vida em Cana" disputa prêmio em Hollywood

O menino de engenho Jorge Wolney Atalla Júnior nunca pisou em um canavial. Demoraria anos para o então economista Jorge Wolney Atalla Júnior passar seis meses imerso no cotidiano dos cortadores de cana na imensa fazenda da família, no interior do Estado de São Paulo. Experiência que ele retrata no documentário A Vida em Cana, que concorre, no sábado, ao Satélite de Ouro da Academia Internacional de Imprensa de Hollywood - prêmio concedido pelos jornalistas norte-americanos aos melhores filmes do mundo. O título foi disputado pelo Brasil uma única vez com Central do Brasil, de Walter Salles Jr.Jorge Wolney Atalla é filho de um dos mais ricos usineiros do País. Mesmo vivendo muito próximo dos trabalhadores da fazenda, nunca teve permissão para brincar perto das plantações. "Minhã mãe achava perigoso porque eles trabalham com facões", explica. No sábado, Atalla disputará o Satélite de Ouro com cineastas conhecidos, entre eles seu diretor preferido: Martin Scorsese, que está na disputa com o filme Minha Viagem à Italia. Outros que estão no páreo para a premiação são o espanhol Fernando Trueba, que concorre com Calle 54, e Jan Harlam, com Kubrick, Uma Vida no Cinema.A indicação ao prêmio foi recebida com surpresa pelo cineasta estreante. A Vida em Cana é o primeiro filme do economista de 32 anos que sempre trabalhou nas empresas da família (além da usina de cana, os Atalla também produzem café). Em 1998, o diretor diletante foi para os Estados Unidos estudar cinema na New York Film Academy - na qual fez um curta, Princess, que recebeu menção honrosa no Festival Internacional de Columbia.Quando voltou ao Brasil, se confinou na fazenda do pai com uma câmera nas mãos. Sem ter roteiro preparado, passou um mês ganhando a confiança dos cortadores - sem se identificar como filho do "patrão". Seu único objetivo era fazer perguntas sobre fé, saúde e sonho. "Todo o resto foi surgindo naturalmente. Uma das cortadoras demorou dois meses para aceitar falar comigo", lembra o diretor. "Quando falou, contou emocionada a história da morte de sua irmã como nunca havia contado para ninguém."Atalla conseguiu registrar episódios dramáticos da vida dos bóias-frias, como a morte de um trabalhador durante uma briga de bar; o aborto natural sofrido por uma das trabalhadoras e o anúncio da morte da mãe de outra. Ele fez A Vida em Cana praticamente sozinho. Dirigiu, produziu, editou e bancou do próprio bolso os U$ 8 mil gastos com o filme. Além da indicação para o trófeu Satélite, Vida em Cana conquistou 11 premiações em festivais, entre eles, melhor documentário, melhor direção e melhor montagem no Festival de Cinema de Recife do ano passado.Por que escolher esse tema? Jorge Wolney Atalla Jr.- Muita gente me pergunta isso. É irônico de certa forma, mas quem melhor que alguém que cresceu nesse meio para falar sobre ele? Não tive em nenhum momento a intenção de fazer algo crítico. Queria apenas mostrar que na vida de pessoas simples existe uma história. Se um jornalista, por exemplo, fosse fazê-lo, sem dúvida enfocaria o cunho social. Acho que por eu não ter tido esse foco, o filme ficou tão humano, tão sensível.Como sua família recebeu a escolha do tema? Ficaram receosos. Temiam certos temas, como o salário dos trabalhadores, que poderiam ser abordados pela mídia. Mas ficaram satisfeitos com o resultado.Além da questão salarial, você trata de temas delicados como exploração infantil - a maioria dos trabalhadores conta ter começado a cortar cana aos 10, 11 anos - e homossexualismo.É. A exploração infantil, por exemplo, é algo inevitável. Todos os cortadores largaram a escola para trabalhar. Esse tipo de coisa não acontece mais em São Paulo, não só por a lei exigir que eles sejam registrados, mas porque a fiscalização é dura. Mas acredito que no Nordeste seja diferente. E a questão do homossexualismo - que infelizmente fez muitos americanos que viram o filme darem risada - é abordada de uma forma diferente. O rapaz que deu a entrevista começou um relacionamento com um homem, que era seu médico, quando tinha 7 anos, ou seja, foi, de certa forma, vítima de um abuso. Minha mãe não queria que eu colocasse esse depoimento, mas fiz questão, pois isso é um fato.Alguns detalhes do filme dão a impressão de ele ter sido feito já pensando no público americano. Você usa uma legenda explicando o que é forró ou com a informação de que a área de cultivo de cana no Brasil é igual a 538 ilhas de Manhattan. Desde o início eu tinha intenção de exibir o filme lá fora. Acredita que isso tenha ajudado o filme a ter uma boa receptividade nos EUA? Sim. Mas acho que o principal motivo foi o tema. Os brasileiros não gostam tanto de ver suas realidades, mas o povo de lá não conhece essas coisas. Uma prova disso é o filme ter sido aceito em mais festivais lá do que aqui. Dos 21 em que foi aceito, só seis são nacionais.

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