'Não sei nada, ou melhor, sei alguma coisa', diz
'Não sei nada, ou melhor, sei alguma coisa', diz

'A vida é permanente descoberta'

Sem um Oscar no currículo, Max Von Sydow, o mítico ator de 82 anos, concorre agora ao prêmio como coadjuvante

Luiz Carlos Merten, Enviado Especial, BERLIM,

19 Fevereiro 2012 | 10h38

Max Von Sydow estava no primeiro filme de Ingmar Bergman a receber o Oscar, A Fonte da Donzela, e também no segundo, Através de Um Espelho. Ele teve uma longa convivência com o autor sueco, no teatro e no cinema. Outro de seus filmes, e desta vez não de Bergman, também ganhou o Oscar - Pelle, o Conquistador, de Bille August. Apesar disso, somente agora, aos 82 anos, ele está indicado para o Oscar de ator coadjuvante, por Tão Forte e Tão Perto. O filme de Stephen Daldry integrou a competição de Berlim. Estreia na sexta, no Brasil, dois dias antes da entrega do prêmio da Academia. O encontro com o mítico ator ocorreu num dia particularmente frio do inverno berlinense, mas o calor humano fez, desses preciosos 30 minutos, uma experiência inesquecível para o repórter.

 

Para um ator com seu currículo, qual é o significado de ser indicado para o Oscar?

Embora exista muito preconceito contra Hollywood, é o prêmio mais conhecido e, por que não?, o mais importante do cinema. Bergman recebeu-o três vezes e se orgulhava de seus Oscars. Eu também me orgulho de ser indicado, até porque quem faz as indicações para melhor ator são os atores. Ser reconhecido pelos colegas é sempre emocionante. Nós, atores, somos narcisistas, gostamos do aplauso. Bergman fez filmes sobre isso - O Rosto, Os Comungantes. Se vou ganhar, é outra coisa. Mas estou feliz, sim.

Seu nome é indissociável do de Bergman, com quem você fez seus melhores filmes. O que pode dizer dele?

De Bergman? Teríamos de ficar dias conversando e não esgotaríamos o assunto. Não dá para resumir em minutos uma vida de convivência, mas o que posso dizer é que era jovem quando comecei a fazer teatro com Ingmar. Filmes, peças, tudo o que sei e sou devo a ele. E Ingmar não me via como uma marionete, mas como seu igual. Foi um privilégio ter convivido com ele, em seu círculo.

Você tem algum filme favorito entre os que fez com ele?

De novo é impossível escolher, pois são filmes que fazem parte da história do cinema. Escolha você por mim.

Gosto muito, entre os seus filmes, de A Fonte da Donzela, mas mais ainda de O Sétimo Selo e A Hora do Lobo.

O Cavaleiro e a Morte, para muita gente, é o melhor filme de Bergman. Gosto de A Hora do Lobo. Bergman havia começado a mudar com Persona (Quando Duas Mulheres Pecam) e fez na sequência A Hora do Lobo e Vergonha. Gosto muito de A Hora do Lobo, com seu clima estranho, opressivo.

E o que você acha de Pelle, o Conquistador, de Bille August?

É outro filme muito importante na minha carreira. Fez grande sucesso de público e crítica na Suécia e em todo o mundo. Bille abordou o tema da imigração, as dificuldades da vida na Escandinávia no começo do século passado. É um filme clássico, mas muito sólido, com personagens verdadeiros.

Ainda não falamos de Tão Forte e Tão Perto. Que tal?

É sempre um privilégio para um ator encontrar diretores talentosos, e Stephen (Daldry) é. O filme trata das consequências do 11 de Setembro, por meio desse menino que, com uma chave, quer descobrir o legado do pai. Ele acha que essa chave abre algum cofre, em algum lugar, mas a grande descoberta é que ele abre seu coração e mente e se acerta na lembrança com o pai que morreu nas torres. Era arriscado. Ainda poderia ser muito cedo para fazer esse filme, que toca em feridas profundas. Ainda bem que Stephen ousou.

Seu personagem não fala. Prescinde das palavras. Como é para um ator?

Era o desafio do papel. Como transmitir pelo olhar, pela dureza na postura a angústia que corrói a alma deste homem? Stephen veio do teatro, como Bergman. Esses diretores têm uma capacidade de tirar da gente coisas que a gente nem sabe que pode dar. Minhas cenas com o garoto (Thomas Horn) foram muito intensas. Tenho sido abençoado nas minhas relações com crianças no cinema. Pelle, este filme, o próprio Fonte da Donzela. Aprendo com elas, com sua vivacidade.

É muita humildade de sua parte dizer que ainda tem o que aprender. Qualquer um vai dizer que você tem para ensinar, não é mesmo?

Mas seria soberba eu achar que sei tudo. Não sei nada, ou melhor, sei alguma coisa. Sei que a vida é uma permanente descoberta, e que viver é carregar a herança daqueles que amamos e foram importantes para nós.

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