TS Productions
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'A Vida de Uma Mulher' discute o valor de uma mulher no mundo controlado pelos homens

Diretor francês Stephane Brizé reavalia atualidade de Maupassant

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

21 Julho 2017 | 06h00

Há um momento de A Vida de Uma Mulher em que Jeanne, a aristocrata interpretada por Judith Chemla, é exortada por seu clérigo confessor a contar ao vizinho o que o marido dela anda fazendo com a mulher dele. Jeanne reage horrorizada. São palavras mais ou menos textuais - “Não quero ser aquela que vai destruir tudo.” Mais do que um grito de desespero - um sussurro, pois falam em confissão -, o que Jeanne diz expressa algo muito mais profundo. Como mulher, ela é educada para desempenhar um papel na sociedade francesa do século 19, servindo ao pai, ao marido, ao filho. Que sua trajetória seja dolorosa e ela conheça a degradação - física e financeira - é consequência.

É uma trajetória descendente, uma sucessão interminável de desgraças em que Jeanne vai perdendo tudo - entes queridos, propriedades. Só não fica sozinha porque a antiga doméstica - e, depois, rival na cama do marido - mantém-se a seu lado. São décadas de sofrimento, mas o final, sem ser propriamente surpresa, revela um alento. A vida, afinal de contas, não é só boa nem ruim. Une Vie, Uma Vida. O diretor Stéphane Brizé sonhava com esse filme há mais de 20 anos. Quem lhe apresentou o texto - o primeiro romance de Guy de Maupassant - foi Florence Vignon, que assina o roteiro com ele. Ao longo dessas duas décadas, Brizé firmou-se como um diretor de temas contemporâneos. A Vida de Uma Mulher (título brasileiro) é seu primeiro filme de época, mas se engana quem pensar que a odisseia interior de Jeanne lhe interessa como um ‘case’ histórico para pensar a condição da mulher.

A saga de Jeanne dá continuidade perfeita, do ponto de vista feminino, à dissecação que Brizé fez das vicissitudes de Vincent Lindon no mercado de trabalho em O Valor de Um Homem, seu longa de 2015, que valeu ao ator o prêmio de interpretação em Cannes. Recapitulando - aos 51 anos, Tiérry/Lindon está desempregado. Não interessa mais ao mercado. Desesperado para atender aos compromissos - e com um filho deficiente para sustentar - Thiérry aceita empregos abaixo de sua qualificação. Termina como segurança num supermercado, onde o que se espera dele é que seja duro com os ainda mais infelizes. Muda tudo - o gênero, a época -, mas Brizé conta as duas histórias mais pela proximidade do que pelas diferenças. Aposta na humanidade e, em ambos os casos, adota um rigoroso realismo que desconstrói por meio de um relato elíptico - por exemplo, não mostra o casamento de Jeanne.

Justamente o casamento. Jeanne surge como uma romântica que se desilude com o mundo à sua volta, não apenas o próprio casamento, mas o dos pais. Ao padre confessor, brada contra o universo de mentira. No limite de sua desesperança, recita um poema de Marceline Desbordes-Valmore, J’Avais Froid, Eu Tinha Frio, em que a poeta, afundando nas profundezas, suplica a Deus que não lhe leve a memória. É um pouco o tema de A Vida de Uma Mulher - o original de Maupassant já havia sido filmado por Alexandre Astruc em 1957. A dolorosa constatação de um mundo que desaba. Há algo da Emily Dickinson de Além das Palavras, de Terence Davies, em Jeanne. Outra vida em silêncio, talvez. É um filme belíssimo.

 

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