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A vida como ela é, não como gostaríamos que fosse

‘Estados Unidos do Amor’, do polonês Tomasz Wasilewski, possui qualidades que justificam o Urso de Prata em Berlim, no ano passado

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

03 Janeiro 2017 | 04h00

Embora não tenha nada a ver, Estados Unidos do Amor, o longa do polonês Tomasz Wasilewski que estreou na quinta, 29, lembra de alguma forma o romeno Sieranevada, de Cristi Puiu. E essa semelhança tem a ver com drama, e também com estilo. Sieranevada é sobre os conflitos no interior de uma casa, e de uma família. A câmera, quase sempre no corredor, é fixa e as muitas coisas se passam fora de quadro, em planos longos, claustrofóbicos. Estados Unidos é sobre quatro mulheres – Julia Kijowska, Magdalena Cielecka, Dorota Kolak e Marta Niradkiewcz –, seus altos e baixos num quadro bem específico – a Polônia por volta de 1990.

O Muro de Berlim já caiu, o império soviético está se desmoronando e tudo o que representou o Solidariedade para os poloneses também parece distante. Wasilewski e seu fotógrafo – Moldovan DoP Oleg Mutu, o mesmo de Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias, de outro romeno, Cristian Mungiu, vencedor da Palma de Ouro – filmam quase sempre em planos fixos. O objetivo é criar um clima opressivo, melancólico. Se Wasilewski tem um mestre, bem pode ser o também polonês Krysztof Kieslowski, tentando filmar o indizível. Mas Wasilewski, com toda a sua austeridade, e minimalismo, tem um humor, por vezes surreal, que a muitos fez lembrar Roy Andersson. E, claro, a forma como suas personagens transgridem remete às bizarrices do austríaco Ulrich Seidl. Todas essas influências foram devidamente assinaladas em fevereiro do ano passado, na Berlinale, festival em que o filme representou a Polônia – e venceu o Urso de Prata de roteiro.

Temos, assim, dois vencedores da Berlinale passada em cartaz – o filme de Wasilewski e o de Mia Hansen Love, O Que Está por Vir, com Isabelle Huppert, que ganhou o Urso de Prata de direção. Quatro mulheres, quatro destinos. Agata sente-se infeliz no casamento, apesar dos esforços do marido, e para completar está apaixonada pelo jovem padre local. Iza é a professora que também está em crise com o amante, um médico, que por sinal é pai de um de seus alunos. A irmã de Iza, Marzena, é uma bailarina e ginasta que está infeliz na profissão – queria ser modelo – e sente falta do namorado. E, finalmente, a vizinha de Iza, Renata, é uma mulher mais velha que cria pássaros e está secretamente apaixonada por Marzena. Todas essas histórias se articulam num clima amargurado. Mas o filme é tão bem interpretado, e as cenas e diálogos, tão bem escritos que é difícil não se envolver com os pequenos retratos intimistas. A vida como é, não como gostaríamos que fosse.

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