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A verdadeira revanche de 'Ajuste de Contas'

Filme com Robert De Niro e Sylvester Stallone é um festival de clichês, mas tem seu encanto

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

14 Janeiro 2014 | 17h53

E se a revanche de que fala Ajuste de Contas não for a de dois velhos lutadores que há décadas amargam sua frustração? O Kid venceu uma luta, Razor a outra e logo em seguida desistiu da carreira, negando os pedidos do outro por uma revanche que iria definir – na melhor de três – quem é/era o campeão.

Kid é Robert De Niro, Razor é Sylvester Stallone e para o espectador que vai ver o filme de Peter Segal existe a lembrança de que o primeiro ganhou o Oscar por sua memorável interpretação como Jake La Motta em Touro Indomável, de Martin Scorsese, e o segundo também ganhou seu prêmio da Academia – melhor roteiro – por um longa que virou franquia: Rocky, Um Lutador, de John G. Avildsen. Muita gente diz, por isso, que Ajuste de Contas é uma incursão nostálgica dos dois atores em seus passados gloriosos.

Há uma revanche no filme, e até se pode dizer que existe também nostalgia, mas pelo quê? Certamente não pela juventude do Kid nem pela de Razor, porque nenhum deles, agora com o recuo do tempo, admite ter algo do que se orgulhar. A nostalgia é por outra coisa. E se revanche de Ajuste de Contas for a do boxe tradicional contra essa nova forma de luta, a MMA, Mix Martial Arts, que aposentou um cavalheirismo declarado e instituiu a selvageria no ringue? Antes de protestar, pense no recente ‘acidente’ com Anderson Silva. Por mais que o lutador inocente seu adversário do crime de intenção, o espectador que viu a cena se lembra da patada e do osso rompendo-se. E talvez pense – que raio de luta é aquela?

 

 

 

 

Em Ajuste de Contas, as redes sociais, veiculando imagens da rivalidade de Kid e Razor – os dois foram chamados para gravar um vídeo que servirá de guia para um videogame, mas o que era para ser simulação descamba para pancadaria de verdade –, cria o clima que viabiliza a luta que eles deixaram de lutar no passado. A dupla vai para o pau, e a rivalidade não é só pela hipotética superioridade de um deles sobre o outro. Há uma mulher no meio – a de Razor, que o Kid ‘seduziu’ e engravidou. Entra em cena Kim Basinger, que pode não ser mais a bombsell vencedora do Oscar de coadjuvante por Los Angeles – Cidade Proibida, de Curtis Hanson, mas ainda é uma bela mulher. E todo mundo agora se reencontra.

Você já ouviu que Ajuste de Contas é um festival de clichês, e pode ser que seja. Mas o clichê, se o diretor for inteligente, ou ele o filma melhor que todo mundo ou o subverte. Peter Segal não é o melhor diretor do planeta e, portanto, a primeira hipótese fica descartada. Quem sabe a segunda? O ponto curioso de Ajuste de Contas é que o filho de Kim vai treinar o pai (o Kid), mas ele é suficientemente íntegro e bom rapaz para merecer a consideração de Razor. Embora se trate de uma comédia – a maioria das piadas vem do processo de treinamento dos dois velhotes –, a arquitetura dramática converge para o confronto, no ringue.

O Kid tem uma desvantagem – vulnerabilidade? – e o Razor, a princípio, tira vantagem dela, mas isso aqui é boxe, entre adversários leais, à moda antiga. Mamãe vai reclamar do filho treinador, que puxa a orelha do Kid e o exorta a lutar como homem, não a dar socos e pontapés a torto e a direita. A luta muda de figura, a melhor de três tem o seu vencedor. O amor triunfa, o que não significa que o ódio termine. O importante é que, hollywoodianamente, os adversários se respeitam, como James Hunt e Niki Lauda no deslumbrante Rush, de Ron Howard. Ajuste de Contas não é tão bom – não! –, mas tem seu encanto.

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