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A valorosa experiência do Cine Tela Brasil vira livro

Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi relatam como é exibir filmes a comunidades de baixa renda no Brasil

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

30 de novembro de 2014 | 17h44

Eles são contadores de histórias, mas de um tipo especial. Para Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi, não basta contar experiências transformadoras em belos filmes como O Bicho de Sete Cabeças, Chega de Saudade e As Melhores Coisas do Mundo, que ele escreveu e ela dirigiu, ou como a animação História de Amor e Fúria, que ele escreveu e dirigiu. Laís e Luiz acreditam que se possa retirar o sonho da tela e forçar a realidade. Mudar o mundo, mesmo que uma pequena mudança. Em 1996, colocaram na caçamba do próprio carro um projeto de 16 mm e saíram mostrando – em escolas, praças, aldeias indígenas – seus curtas e os dos amigos. A experiência virou um documentário (Cine Mambembe) e, em 2004. surgiu o Projeto de cinema itinerante Cine Tela Brasil, com o objetivo de exibir filmes para comunidades de baixa renda.

Em 2007, começaram as oficinas Tela Brasil, para ensinar – gratuitamente – como produzir curtas-metragens. Em 2014, neste ano que se encerra, ocorreu o lançamento do Instituto Buriti, para fomentar o audiovisual como ferramenta de aprendizagem. Não se trata só de alfabetizar os interessados para a criação do audiovisual. O instituto leva oficinas educativas de alfabetização audiovisual para escolas públicas. Semeia projetos audiovisuais no contraturno das escolas. Ao longo desses dez anos, cresceu tanto que estava absorvendo muito Laís e Luiz.

Demais? “A gente gosta e considera superimportante o trabalho social, mas ele tomou uma dimensão tal que estávamos sem tempo para investir no nosso lado autoral e artístico”, contou Luiz numa entrevista. Desistir do Cine Tela Brasil? Jamais – dispostos a continuar investindo em audiovisual e educação, eles fizeram com que o Cine Tela se desdobrasse e aperfeiçoasse nas mãos de ex-funcionários que viraram empresários. O Cine Tela está preparando o primeiro cinema itinerante do Brasil em 3-D. Tudo isso é narrado num livro que será lançado nesta segunda, 1º, às 19 h, no MIS. Cine Tela Brasil e Oficinas Tela Brasil – Dez Anos Levando o Cinema a Escolas Públicas e Comunidades de Baixa Renda.

O projeto ganhou apoio institucional e patrocínio privado. Para quem curte estatísticas, os números impressionam. Em dez anos, foram visitados 759 bairros em diferentes pontos do Brasil. Foram 7.439 sessões que apresentaram 137 filmes, que foram visto por 1.355.403 espectadores. Nas oficinas, foram feitos 407 curtas com duração média de 7 minutos. Somam mais de 48 horas de filme. Foram produzidos por equipes de 4 a 15 integrantes. Em sete anos, foram 121 oficinas. Cada uma tinha, em média, 26 alunos. Participaram no total 3.158 alunos e 1.537 educadores também receberam formação. A experiência foi ampliada online, com a criação de um portal.

Laís e Luiz não apenas influenciaram – mudaram? – a vida de muitas (quantas?) pessoas. Foram tocados, de volta. Em 2008, uma turminha de Ponta Grossa, no Paraná, fez o curta Viver É Uma Escolha, sobre uma meninha tão deprimida que vai se matar. “Era um clima de tédio adolescente. Nos tocou tão profundamente que inspirou o plot de As Melhores Coisas do Mundo”, lembra Luiz. E ele acrescenta – “O Bicho foi escrito durante o Cine Mambembe. Enquanto escrevia eu me imaginava projetando o filme na praça. Estava à flor da pele e a cada cena pensava – o espectadore não pode deixar nosso filme no meio.”

São tantas as histórias dessa década prodigiosa. Queira-se ou não, o País mudou e o Cine Tela, com suas oficinas, é uma expressão da mudança. O Brasil em movimento. São muitas histórias que dariam filmes. Em 1963, o lendário John Ford, o Homero de Hollywood, fez um filme chamado O Aventureiro do Pacífico. Para os críticos, um de seus filmes menores. Ford, com seu cinema, ajudou a criar um conceito de ‘nação’ para a ‘América’. O Aventureiro era simples, e numa cena o padre num lugarejo do Haiti reza por um milagre, porque sua igreja está cheia de goteiras. O Cine Tela chegou um dia a uma pequena cidade nos emaranhados desse Brasil. A sessão era para ser na praça, mas choveu. Decepção geral. O padre, fordianamente, abriu sua igreja e o filme foi projetado lá dentro.

O livro está cheio de histórias como essa, não apenas de números. No limite, o que interessa são as pessoas. É assim no cinema de Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi e é assim nesse sonho de cinema mambembe que eles conseguiram fazer real.

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