A utopia da cidade na qual os conflitos se dissolvem no ar

Filme evoca a decadência de uma família aristocrática com leveza e humor

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2013 | 12h10

Cinematografias imaturas, como a brasileira, são dadas a hipérboles e julgamentos definitivos. Por exemplo: bastou surgir uma comédia que não ofendesse de forma mais grave a inteligência (para não dizer a sensibilidade) do espectador um pouco mais exigente para que fosse saudada como obra-prima. Ou exemplar redivivo das melhores chanchadas da Atlântida, gênero que, a seu tempo, também foi vítima de discriminações e muxoxos, antes de ser resgatada por críticos do porte de um Sergio Augusto com seu livro Este Mundo É Um Pandeiro (prestes a ganhar nova edição). Como se não bastasse, o filme em questão, Vendo ou Alugo, deu à diretora, Betse de Paula, tripla e rara vitória no Cine PE, o festival de cinema do Recife – melhor filme para o júri oficial (além de uma penca de outros troféus), o prêmio do público e, valha-me Deus, o da crítica. Uma unanimidade, ainda mais rara.

Por sua própria conta o espectador poderá agora conferir que, se o filme que estreia hoje não é tudo isso, também não é pouca coisa. Não precisamos exagerar-lhes as qualidades para destacar seus méritos. Do ponto de vista estritamente cinematográfico, é, talvez, o mais elaborado da carreira de Betse de Paula. Filmado em planos sequências, revela ambição estética desconhecida em seus trabalhos anteriores. O enredo, além de caprichado, traz também uma veia crítica que, embora não se realize totalmente, é bem rara nos filmes do gênero saídos do crisol do entretenimento nacional made in Globo Filmes.

Para começar, ele bate na tecla da decadência, porém com humor leve. Maria Alice (Marieta Severo) mora com a mãe (Nathalia Timberg) numa antiga casa do Leme caindo aos pedaços. A mansão é emblema dos velhos e bons tempos de opulência da família, hoje obrigada a se virar como pode para manter um resto de status. A filha de Maria Alice, Baby, é vivida por Sílvia Buarque, no papel de uma natureba fanática. Marcos Palmeira é Jorge, traficante que se serve dos bons serviços de Maria Alice para o transporte de algumas cargas. O nobre casarão de tempos de antanho hoje é vizinho de uma favela, mas a ação das UPPs transmite certa sensação de segurança. O fato é que a venda do imóvel parece ser a única saída para a enrascada financeira da família. E sua localização um tanto comprometida pode mesmo servir como atração temática para turistas ávidos de viver “o verdadeiro Rio”.

Como se verá, um ponto chave da produção é o elenco de ponta. Marieta é sempre uma presença marcante em cena. Divertida, tem o timing do texto engraçado. Nathalia Timberg é uma veterana que, vista na tela, desperta a pergunta de porquê o cinema não a aproveitou melhor. O resto do elenco funciona bem, com destaque para André Mattos como um pastor evangélico picareta.

Mas se Vendo ou Alugo não teme furar o bloqueio cômico do politicamente correto, também não vai além da visão ainda idealizada do Rio de Janeiro. O retrato é o da cidade na qual tudo se ajeita e todos os conflitos se resolvem pela acomodação, de maneira quase mágica. Um resto daquela utopia da praia como o local “onde todos somos iguais”, e que hoje ninguém leva a sério. Um pouco dessa autoilusão contamina o filme e define os seus limites. Tem momentos bem engraçados. Outros menos.

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