Foto Gravitas Films
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‘A Última Nota’ trata com sensibilidade do envelhecimento de um famoso concertista

Drama, que estreia no streaming, tem interpretação classuda de Patrick Stewart como o pianista Henry Cole

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2020 | 05h00


O ambiente da música clássica e a figura de um virtuose do piano são os principais personagens de A Última Nota (Coda, no original), produção canadense que entra em cartaz no serviço de streaming (Now, Vivo Play, iTunes, Apple TV, Google Play, YouTube Filmes, Claro Vídeo e Sky Play), a partir desta sexta, 31.

Patrick Stewart faz o pianista Henry Cole, em interpretação classuda. Cole tem fãs pelo mundo todo, mas apenas seu fiel agente (Giancarlo Esposito) sabe pelo que ele passa. Viúvo, sentindo-se envelhecer, Cole de vez em quando “trava”. Esquece a música, tem um “branco”, lapso fatal para músicos, atores ou quem quer que se apresente em público, ao vivo. Já teve um tropeço durante um concerto e teme que isso aconteça de novo.

A outra personagem importante da trama é a jovem jornalista Helen Morrison (Katie Holmes), que deseja escrever um artigo sobre Cole para a revista New Yorker. Tenta, em vão, uma entrevista com ele.

Por aí se vê o ambiente espiritual e geográfico da história. Conflitos existenciais, alta cultura, Nova York, Paristal. Refere-se à tese do eterno e até mesmo Sils Maria, na Suíça, ao pé dos Alpes, no hotel onde Friedrich Nietzsche morou algum tempo. A presença do filósofo na narrativa não é ornamenretorno e sua relação com a morte e tem tudo a ver com a trama.


 


Em seu longa-metragem de estreia, Claude Lalonde opta por um registro equilibrado. O tom buscado pelo elenco é de contenção. E, nesse ponto, o destaque fica mesmo com Stewart, capaz de expressar dor e introspecção no rosto, sem forçar a barra. Consegue, por isso mesmo, transmitir os sentimentos de um personagem atormentado, sem chantagear o público com exageros. 

Katie Holmes também não está nada mal como a jovem que entra como lufada de vida naquele momento difícil da vida do homem velho. Sua personagem, Helen Morrison, não é simplória e também carrega sua cota de frustrações e dramas, embora ainda tenha “a vida toda pela frente”, como se costuma dizer aos jovens.

Lalonde esmera-se em compilar detalhes para que o tom realista não desafine. Por exemplo, nas cenas de piano vemos mãos que realmente sabem tocar o instrumento e não estão apenas fingindo.  Nada parece forçado.

Se às vezes sentimos certa falta de ousadia, nem por isso nos extraviamos do filme. Ele parece crível e diz Stewart coisas que nos falam de perto. As crises e os dilemas dos personagens não parecem distantes ou artificiais aos olhos dos comuns mortais. Pode ter como protagonista um ser de exceção (um concertista internacional, rico e famoso), mas nem por isso o que ele sente nos parece estranho ou indiferente. Envelhecer, perder entes queridos, sentir a vida profissional indo pelo ralo são, no fundo, contingências da vida de qualquer ser humano, quase sem exceções.

Pode-se usar outros argumentos para dizer que A Última Nota parece um filme um tanto fora do tempo. Não apenas pela repetição de um tema batido - casal com grande diferença de idade, em que o mais jovem dá novo sentido de vida ao mais velho, etc., mas também porque, em nossa época exacerbada, o mundinho da música erudita pode parecer de um elitismo intolerável. Certo. Mas devemos considerar que a repetição de temas não deveria ser considerado um mal em si mesmo - é, talvez, apenas testemunho da finitude de repertório da espécie humana. Por outro lado, o bastidor da grande música apenas revela um ambiente em que a arte chegou ao grau extremo de sofisticação e exigência. A razão desse tipo de arte não ser mais popular deve ser buscada mais nos campos da economia e da política do que no da estética.

Quanto à feitura do filme, deve-se admitir que a rigidez da forma engessa um pouco o conteúdo. Mas nada de tão grave que não possa ser diluído em doses fartas de Beethoven, Brahms, Bach e Scriabin. Bonito filme, em síntese.

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