Divulgação
Divulgação

'A Travessia' é uma espécie de busca espiritual

Para Philippe Petit, suas proezas não visam recordes, mas são como uma cena de teatro, à procura de beleza

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2015 | 03h00

Em 2009, Philippe Petit, o personagem real de A Travessia, esteve no Brasil e conversou com o Estado. Foi no Amazonas, onde ele era jurado de um festival de cinema.

Petit é cool. Seguro de si, discreto, sereno. Como se supõe que deve ser alguém dotado de sangue frio para caminhar sobre um cabo de aço a mais de 400 metros de altura, sem rede de segurança.

Franceses, de modo geral, são orgulhosos de sua língua e cultura. Petit, porém, recusou-se a ser entrevistado em francês. Preferiu o inglês, tamanha a sua identificação com os Estados Unidos, onde realizou a sua maior façanha. Antes de caminhar entre as Torres Gêmeas, era apenas um personagem local. Sua travessia das torres da Catedral de Notre-Dame ganharam manchetes, é verdade. Mas nada que se comparasse ao passeio no abismo entre os prédios do World Trade Center.

A proeza não pode ser repetida. Mesmo porque as Torres Gêmeas não existem mais. Mas Petit não se sente à vontade ao falar do assunto. “Sinto-me desconfortável de falar de um triunfo pessoal num local onde morreram milhares de pessoas”, diz. Depois, acrescenta, não faz travessias para bater recordes, nem para figurar no Guiness (“embora esteja nele”, sorri).

Por que, então, se arriscar tanto? Não teria sentido, não fosse pensar as travessias de outra forma. Como beleza, algo ligado ao teatro, à poesia, talvez. Algum tipo de busca espiritual?, sugiro. “Precisamente.” Em seus livros (tem oito publicados), não se cansa de usar sua arte como metáfora. “A travessia na corda bamba é uma representação da vida. Há um começo, um meio, um fim. Um passo em falso, o abismo se abre sob nós e acabou-se.”

Estar mentalmente preparado é tudo. Por isso, o instante de iniciar a caminhada não é de medo, mas de serenidade. Mas Petit não descuida dos detalhes materiais. Tecnicamente, é perfeccionista. Estuda a fundo o equipamento, o clima e o regime dos ventos do local. “Isso é fundamental. Quando fiz uma travessia ascendente do Trocadéro à Torre Eiffel, estudei os relatórios de ventos dos últimos 15 anos na região.”

A conversa foi num barco, no Rio Amazonas. De repente, um golpe de vento varre o convés, levando copos, pratos e guarda-sóis. Só não derruba o suco de cupuaçu de Petit, que segurava o copo com firmeza. “O vento não chegou de repente. Ele se anunciou, mas vocês não perceberam”, diz, sorrindo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.