'A Tortura do Medo', de Michael Powell, é farol para Scorsese

Filme foi incompreendido em 1960, mas hoje o foco psicanalítico e a audácia de linguagem lhe valem a aura cult

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2014 | 16h00

Em 1960, quando Michael Powell fez Peeping Tom, lançado no Brasil como A Tortura do Medo, não eram muitos os críticos a reverenciá-lo como grande autor. O culto começou depois, mas se desenvolveu com tanta intensidade que Raymond Lefrebvre e Roland Lacourbe, em 30 Anos de Cinema Britânico, citam seus filmes como ‘obras capazes de encantar os cinéfilos mais exigentes’. Com o tempo, Martin Scorsese advogou-se o posto de oficiante do culto e tem batalhado pelo restauro das obras-primas de Powell, seja seus filmes sozinho ou os que fez em dupla com Emeric Pressburger. Deve ajudar bastante o fato de a viúva de Powell, Thelmas Schoonmaker, ser a montadora preferida de Marty.

Há 54 anos, quando a história do fotógrafo Mark Lewis bateu na tela o público e os críticos já estavam submetidos a outra angustiante experiência de terror – e suspense – com Psicose, de Alfred Hitchcock. O próprio cult de Hitchcock provocou reações desencontradas, mas, com o tempo, a cena do assassinato na ducha também virou emblemática do cinema que se faria a seguir. Todo mundo sabe o que Norman Bates (Anthony Perkins) fazia naquele motel. E Mark Lewis? Interpretado pelo ator austríaco Karl-Heinz Böhm, o imperador da série Sissi (com Romy Schneider), o personagem sofreu experimentos bizarros na infância e agora, adulto, vive obcecado para capturar o medo na expressão das pessoas. Para isso, cria uma câmera com um dispositivo que lhe permite matar mulheres na hora em que, supostamente, deveria estar somente fotografando-as.

Os críticos não se interessaram pela riqueza metafórica da relação entre cinema, erotismo e morte nem pela carga psicanalítica, preferindo ver apenas o que seria a vulgaridade do filme. A revista Cahiers du Cinéma chegou a incluir o hoje clássico de Michael Powell no rol da mediocridade dominante (segundo seus críticos) no cinema inglês. A versão lançada em DVD traz imagem e sons restaurados, e ainda possui uma hora de extras. Eles incluem a apresentação feita por Martin Scorsese, e você vai sentir como ele é um apaixonado incondicional pelo filme de Powell, situando o diretor entre os visionários e incompreendidos da tela. Moira Shearer, Ann Massey e Shirley Anne Field, que seria estrela do free cinema – o movimento de renovação do cinema inglês – estão no elenco.

A TORTURA DO MEDO 

Direção: Michael Powell Distribuição: Versátil (92 minutos, R$ 37,50)

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