"A Terceira Morte..." revê 35 anos de Brasil

Com A Terceira Morte de Joaquim Bolívar, que entra em cartaz nesta sexta-feira em São Paulo, Flávio Cândido faz sua estréia na direção de longa-metragens. Para contar a história que ele mesmo escreveu, criou uma narrativa que mostra a linha evolutiva do cinema brasileiro iniciada por Nelson Pereira dos Santos e Alexy Vianny e retomada por Gláuber Rocha na década de 60. Gláuber, aliás, aparece como personagem do filme. Para que a homenagem aos três diretores fosse completa, Cândido optou por uma estética econômica, uma das principais características do Cinema Novo: a produção de A Terceira Morte de Joaquim Bolívar saiu pela bagatela de R$ 700 mil.Passada na fictícia cidade de Burruchaga, um decadente vilarejo na Serra do Mar fluminense, o enredo passa por 35 anos do história política brasileira, a partir de 1964, através das três diferentes vidas do personagem Joaquim Bolívar. "Eu quis fazer uma reflexão objetiva sobre a política do país. Escrevi e dirigi uma história que gostaria de ver na tela", conta o diretor.Em janeiro de 1964, Joaquim Bolívar (Sérgio Siviero) chega a Burruchaga para trabalhar como barbeiro. Comunista, acaba entrando em confronto com a poderoso Coronel Gaudêncio (Othon Bastos). Um projeto para a construção de uma usina hidroelétrica intensifica o conflito entre os dois, ao longo de 35 anos. Apesar do filme se passar em três épocas distintas (1964, 1979 e nos dias atuais), os personagens não envelhecem. Apenas o ambiente, os figurinos e a trilha sonora mudam com o passar do tempo. "A idéia de escrever esse roteiro surgiu em 1986. A princípio, a história não se passaria em três épocas diferentes. Mas a minha intenção sempre foi fazer um filme com conotação política", explica o diretor.O ator Sérgio Siviero, que faz o papel de Joaquim Bolívar, faz sua estréia no cinema. Foi escolhido por Flávio Cândido em uma apresentação no Rio de Janeiro da peça O Livro de Jó. "Na verdade, quando fui assistir a peça estava atrás de Matheus Nachtergaele, mas quando vi Sérgio tive certeza de quem deveria fazer o papel de Joaquim Bolívar", relata o diretor. Othon Bastos e Jonas Bloch aceitaram o convite de primeira, apesar de não conhecerem Flávio Cândido. "Escolhi Othon Bastos por causa de sua vasta experiência cinematográfica", conta. Experiência que inclui filmes de Gláuber Rocha como Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro. O filme foi o vencedor do 3º Prêmio HBO de Cinema/1998. As filmagens foram divididas em duas etapas e no total duraram 9 semanas. Mas Flávio Cândido sabe da dificuldade de se divulgar um lançamento brasileiro. "Queria que meu filme estreasse nacionalmente mas infelizmente estou fazendo algo meio mambembe. Vou de cidade em cidade promover a fita. É bom poder ver a reação do público ao vivo, mas também é muito cansativo", conta. A Terceira Morte de Joaquim Bolívar já participou da Mostra Competitiva do 32º Festival de Brasília, com uma versão diferente, mas Flávio Cândido não está muito preocupado em competir nos festivais. "E quero vender minha história para as televisões do exterior". O diretor já tem um novo projeto que pretende começar a filmar em maio do ano que vem: O Jardim das Oliveiras, que tem como pano de fundo a Guerrilha de Taparaó, formada em Minas Gerais durante a ditadura militar. "Mais uma vez, a história em si não me interessa. Quero mostrar o que ocorre paralelamente ao acontecimento histórico."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.