A sexualidade e a família explodem em <i>Crazy</i>

C.R.A.Z.Y. - são as iniciais dos cinco filhos da família Beaulieu: Christian, Raymond, Antoine, Zachary e Yvan. É também o título da canção de Patsy Cline, cuja melodia acompanha uma história que começa em 1960, quando nasce Zachary, chamado sempre de Zac. Ele é, segundo garante uma vidente, um predestinado, capaz de curar gente. A mãe acredita nisso, o pai não. Mas nem sempre será esse o ponto mais interessante do filme e sim o crescimento de Zac, com suas dúvidas diante da vida, inclusive com seus problemas diante da identidade sexual. O diretor Jean Marc Vallée poderia ter feito um filme como tantos outros, humanista, sobre a tolerância, de época, atravessando décadas cruciais e sendo banal como costumam ser. Por sorte, ou mais provavelmente, por talento, vai um pouco além Consegue, primeiro, imersão nada artificial nas três décadas que se propõe retratar - dos anos 1960 aos 1980. Isso porque deixa que o tempo histórico invada a vida dos personagens sem forçar. Depois, porque escolhe um personagem que traz em si os problemas de adequação ao seu tempo, a começar pela questão da sexualidade. Vallée trabalha esse tema com toda a sutileza e a ambigüidade que ele merece. Zac é um ser problemático, um personagem complexo que também não sabe direito como se definir na vida até que isso aconteça de maneira natural. Aliás, "natural" é uma palavra que aparece na crítica porque é o que mais se ressalta nesse filme, que poderia ser muito artificioso mas flui como água. Outro tema que se insinua é o relacionamento com o pai, Gervais (Michel Côté), um homem viril, cidadão à maneira antiga, de família tradicional, acolhedora e levemente repressiva. No entanto, as transformações do mundo também invadem a família e não apenas no que diz respeito à questão sexual de Zac. Haverá também lugar para falar de drogas e do extravio existencial de outro dos filhos, talvez o mais querido porque másculo e muito parecido com o pai. De certa forma, este trabalho discreto, que ganhou o prêmio de melhor filme canadense no Festival de Toronto de 2005 e vários César (o "Oscar" francês) acompanha os dilemas da tradição familiar ao longo de décadas tão conturbadas. Manter sua estrutura tradicional, mas que não abriga mais os conflitos do mundo exterior? Ou mudar-se bruscamente para adaptar-se a esse mundo e perdendo sua essência mesma e inclusive a sua razão de ser? Crazy não é revolucionário, nem mesmo iconoclasta. De certa maneira, como o espectador verá, contempla uma certa conciliação entre duas visões de mundo, o que nada tem de errado do ponto de vista do conteúdo, porque nem sempre visões de mundo são incompatíveis e viver na diferença é uma arte que precisa ser cada vez mais praticada. Do ponto de vista da forma, da linguagem, Crazy procura ser um competente filme de época, como dissemos, sem nada de artificial, mas tampouco nada de inovador. Vallée aposta numa linguagem estabelecida e dela retira o melhor, um registro correto, porém nada acadêmico (não cheira a mofo) e levemente romântica e de esquerda, inclusive na tonalidade fotográfica e no registro musical, David Bowie, Pink Floyd, Rolling Stones e, claro, Patsy Cline. C.R.A.Z.Y - Loucos de Amor (127 min.) - 16 anos

Agencia Estado,

24 Novembro 2006 | 11h17

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